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Página:Historia das invenções.pdf/74

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Monteiro Lobato

poça, com os dedos levemente entreabertos de modo que a agua se escoe e os peixinhos fiquem. Pois a rede de pesca não passa do desenvolvimento desse artificio.

A ratoeira, que é senão a mão que fica engatilhada até que o bobo do ratinho se ponha ao alcance dela, atraido pela isca? De repente, nhoc? a mão fecha-se e o ratinho está preso. Reproduza esse artificio numa maquinazinha feita de arame e eis a ratoeira — e todas as mais armadilhas.

O laço de laçar cavalos e bois bravos, que é senão a mão projetada ao longe por meio duma corda?. Uma das faculdades da mão é agarrar. O laço agarra. E a mão agarra para dois fins: para simplesmente pegar ou para estrangular. A mão que agarra uma galinha pelo pescoço, um coelho ou qualquer outro animal e o estrangula, tambem teve larga aplicação para estrangular criaturas humanas. A forca não passa disso. A forca é mão de corda que agarra um pobre diabo pelo pescoço e o dependura no espaço até que a vida o abandone.

— Que horror a forca, vóvó! exclamou a menina, que nem podia ouvir essa palavra.

— Realmente. E no entanto até hoje, e em paises dos mais adiantados, esse cruel meio de dar morte às criaturas ainda subsiste. Na antiguidade os romanos usavam-no muito. Os gregos não. Eram artistas até nesse ponto. Se queriam condenar alguem á morte, usavam o veneno, como fizeram com Socrates. Muito mais decente. Já os romanos usaram grandemente da forca; e depois dos romanos, quando a Europa caiu naquele tetrico periodo da Idade Media, os homens inventaram meios de matar cem vezes mais crueis. Inventaram os suplicios da Inquisição e da Justiça Publica, coisa que ainda arrepia a gente. A crueldade chegou a tal ponto que a forca foi reabilitada. Só eram enforcadas as pessoas importantes, dignas de consideração. Os outros...

— Pare, vóvó! gritou a menina. Não toque nisso que me faz mal...