Página:Historias de Reis e Principes.djvu/278

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


Sabe o leitor que monumento é esse? Não sabe, decerto. São alguns rochedos que afloram do mar na barra de Lisboa.

Dil-o Duarte Nunes:

«E para que não fique coisa a que se não responda, outra historia como esta andava entre as velhas, e gente popular, porque contavam que quando a condessa veiu a Cascaes e foi desenganada d'el-rei seu marido, que a não havia de recolher, tornando-se para França, estando já para dar á vela, lhe deixou dois filhos, dizendo que dissessem a el-rei que tomasse lá seus cachopos, e que por isso se chamou Cachopos áquelle lugar do mar, onde os deixou, não entendendo aquella gente vulgar que cachopos é palavra portugueza de homens rusticos, por que chamam aos moços de pouca idade, e que a condessa Mathilde, franceza da Gallia Belgica, não podia fallar por aquelles termos da lingua portugueza, que não sabia, e que aquelle lugar da barra de Lisboa, de penedia e bancos, que vão por debaixo da agua, onde as naus perigam, se diz cachopos, corrupto o vocabulo latino scopulus, como se corromperam pela successão dos godos e dos mouros outros infinitos vocabulos, que temos da lingua latina, d'onde a nossa tem a origem. Isto é coisa de graça...»

Graciosos na sua elegante singeleza são tambem este e os outros relanços da chronica de Duarte Nunes.