ONDA
a pia chamára-se Aurora; Onda era o nome que lhe
derão nos salões.
Porque? A culpa era d’ella e de Shakespeare; d’ella, que o mereceu; de Shakespeare, que o applicou á instabilidade dos corações femininos.
Tinha um coração capaz de abrigar seiscentos cavalleiros em dia de temporal, e até sem temporal. Batessem-lhe á porta, que a hospitaleira castellã abria sem maior indagação. Dava ao peregrino agua para os pés, pão alvo e vinho puro para o estomago, leito macio e aquecido para o corpo. Mas, depois d’isto, fechava-se muito bem fechada em sua alcova, e, rezando a Deos pela paz dos viajantes alojados, dormia tranquilla em seu leito solitario.
De taes facilidades em dar asylo a uns, mesmo quando outros ainda estavão sob o tecto hospitaleiro, é que lhe nasceu a denominação que serve de titulo a estas paginas.
Perfida como a onda, disse um dia um dos enganados, vendo-a passar em um carro e indo parar á porta do Wallerstein.
O nome pegou.
Ora, vejamos, em minha imparcialidade de historiador, se esta denominação lhe quadrava.
Coitadinha! não precisava muito tempo para ler-lhe nos olhos, adivinhar-lhe nos gestos, traduzir-lhe nos sorrisos, a vivacidade, a dissimulação, a affabilidade que constituem o typo da moça namoradeira.