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Página:Lincoln narrac̜ão de sua vida pessoal.pdf/21

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I

O FILHO DA FLORESTA

 

Capital importancia teve na construção do povo americano a grande floresta que outrora extendia os seus misteriosos labirintos desde as praias até á região das campinas. Quando, cautelosamente, os primeiros colonos penetraram na fimbria dessas matas do lado da costa, sentiram reviver algo de muitos seculos antes — o fascinio, o terror da natureza virgem habitada pelo homem primitivo. Todas as imprecisas memorias soterradas no subconciente; todas as vagas sombras do passado da civilização; o senso da pressão das forças naturais e a necessidade de luta peito a peito com essas forças; o perigo a espiar de todos os fojos; a brilhante traição do sol a desvendar o segredo das frondes; as estranhas vozes da mata e o seu constante murmurio; a terna beleza da grande lua dourada; todos os milhares de sonhos que deram origem aos velhos deuses Pã, Cibele e Thor — tudo renasceu na alma dos anglo-saxões que penetraram na grande floresta americana. E aquelas sensações eram intensificadas pelo modo como tais homens lá iam ter sozinhos ou com apenas a mulher e um filho, ou, na melhor das hipoteses, associados num pequeno grupo. E as sombras assediantes não eram apenas as do mundo espiritual. Inimigos de carne e osso tão bem armados quanto eles, de vista aguda e pés rapidos, mais cautelosos no andar que os prorios animais selvagens, os impiedosos indios que os europeus teriam de alijar, por lá andavam, invisiveis, intangiveis, a espiar-lhes todos os passos, metidos ninguem sabia onde. Subito, um silvo de flecha ou um estrondo de arma de fogo — e a morte.

Sob tais condições, o colono europeu aprendeu muito e foi obrigado a muito esquecer. A terrivel ne-