Esse estranho episodio tambem nos revela que entre os silencios de Lincoln, enquanto o homem exterior avultava em todos os campos, o homem interior estava procurando uma religião. Sua incapacidade para aceitar a forma do credo materno não se baseava em nenhuma falta de espiritualidade. Embora difusa, a religiosidade de Lincoln transparece nas cartas a Speed. Quando a noiva deste caiu enferma, levando-o a paroxismos de remorso e dor, Lincoln escreveu-lhe: "Espero e creio que essa ansiedade e desespero em relação á saude dela irão banir para sempre as horríveis duvidas quanto ao afeto que você lhe dedica. Se tais duvidas podem ser definitivamente afastadas (e tenho a intuição de que o Todo Poderoso enviou a você essa aflição expressamente para esse fim) nada virá substitui-las e encher a incomensuravel medida das dores... Se, como você supõe, ela estiver destinada á morte prematura, constitue grande consolação saber que está perfeitamente preparada para o lance."
Em outro ponto escreve: "Sempre fui supersticioso. Creio que Deus me fez um dos seus instrumentos para unir você a Fanny — união por Ele pre-determinada. E o que quer que Ele haja predeterminado em meu caso, Ele fará que se realize. Guarde silencio e procure a salvação do Senhor — é o meu texto agora."
A dualidade em auto-tortura desses irmãos espirituais durou ano e meio e cessou com o casamento de Speed. Lincoln já estava completamente libertado do seu demonio interior. Escreveu ao amigo uma encantadora carta, serena, afetuosa, brincalhona, embora levemente tocada dum laivo de desilusão. “Digo-te, Speed, que os nossos pressentimentos (para os quais somos ambos peculiarissimos) constituem a peor especie de contrassenso... Você receia a não realização do eden com que sempre sonhou. Bem, se não for assim, eu juro que não será por falta da que é hoje sua mulher. Não tenho duvidas de que o peculiar a nós dois é sonhar sonhos de paraisos acima de todas as possibilidades de realização neste mundo."8