Ir para o conteúdo

Página:Lisboa no anno três mil.pdf/114

Wikisource, a biblioteca livre
108

Por noite vélha, quando a lua irrompia detrás das ruínas setubalêsas, pelas chapadas da Arrábida reboavam lamentações e salmos. Viandantes, tranzidos de susto, julgavam ouvir gritos e blasfémias de alma penada, e, na vertigem da fuga, precipitavam-se no Sado. Asseguravam outros que tudo aquillo eram latidos de cães silvestres, uivando ao luar.

Daquêlles tempos nada resta hôje onde foi a Arrábida. Pude observar apenas os vestígios da canalização dos dejectos hospitalares, construida com ardosias, pacientemente lavradas pelos filólogos. Uma dellas, expungida a crusta de secreções petrificadas, permittiu-me vêr, entre arabescos romano - celto - germanico - mirandêzes, um substantivo neutro abraçado a um verbo passivo, sobrepostos nesta legenda: — glória de Zé Filólogo, patriarca da Arrábida.—

Foi curta e obscura a história daquella familia.

 
*

Mais positiva, mais alegre e mais prolífica, a familia dos dentistas, bem recebida