Página:Luciola.djvu/111

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terei decerto o desfaçamento de aceitar. Esta noite a senhora não se pertence: é um objeto, um bem do homem que a vestiu, que a enfeitou e cobriu de jóias, para mostrar ao público a sua riqueza e generosidade.

— A mim?... exclamou Lúcia indignada, e continuou com sorriso amargo: Pois sim, roubei-o! E ele deve agradecer-me; porque assim leva a honra intata!

— A senhora vai ao baile!

— Morta podem levar-me; viva não.

— Então expulsa-me da sua casa Sabe o que esse velho palhaço, que é hoje seu amante, pensava esta manhã, sem ter a coragem de o dizer? Que eu a havia desfrutado corpo e bens durante as nossas relações, e por isso era tempo da senhora indenizar-se do prejuízo! Não basta! t: preciso que ele pense ainda que este pretendido arrufo foi um expediente engenhoso da minha parte para encher o cofre que esgotei!

Lúcia não me respondeu uma palavra; com a mesma vivacidade que pusera em desfazer o seu penteado, arranjou-o de novo sem alinho; e voltou-se para mim de olhos baixos e submissa, como uma escrava que esperasse a última ordem do senhor.

Que miserável animalidade havia em mim naquela noite ! Quando essa pobre mulher atingia o sublime do heroísmo e da abnegação, eu descia até à estupidez e à brutalidade!

— Pois realmente capacitou-se de que eu podia ter ciúmes de um Couto! Que extravagância! Nem dele, nem de qualquer outro! Era preciso que tivesse um ciúme bem elástico para poder abarcar todos os que a senhora distinguiu e há de distinguir