Página:Luciola.djvu/155

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O seu rosto anuviou-se:

— Então vai abandonar-me de novo?

— Supunha que isso não passava de uma excentricidade; o meu orgulho se revoltava. Mas há pouco o suplício horrível por que passaste me comoveu a ponto que chorei contigo.

— Chorou?... E por mim!

— Conheci que havia uma dor profunda e intensa no que me parecia ridículo capricho! Hei de me lembrar sempre que te vi quase morta nos meus braços! Um desejo de hoje em diante seria uma idéia assassina! Não posso, não o devo ter! És sagrada para mim; sagrada pelo martírio que te causei; sagrada pelas lágrimas que derramamos juntos. A tua beleza já não tem influência sobre os meus sentidos. Posso te ver agora impunemente.

Lúcia me escutava com enlevo, bebendo uma a uma as minhas palavras e o meu olhar, como se foram um elixir poderoso que a regenerasse. Apenas me calei, desprendeu-se docemente de meu seio, e caiu de joelhos. Ergueu-se depois grave e recolhida para dizer-me:

— Deus me abençoou.

Houve um grande silêncio, em que Lúcia, imóvel e recolhida, continuava absorta no seu êxtase religioso, e eu contemplava-a mudo sem me animar a interrompê-la.

— Agora deves ter confiança em mim, Lúcia; explica-me a razão dessa singularidade.

— Eu mesma não sei! respondeu com ingênua simplicidade.

Ainda receias?...

— Não! Alguma coisa me diz que eu vibro no seu coração uma corda, embora seja a da compaixão e da piedade. Posso abrir-lhe minha alma e