Página:Luciola.djvu/177

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— Isto não pode durar muito! É impossível! murmurava como se respondesse a uma reflexão íntima.

— Por que razão, Maria?

— Por quê? Porque não se goza da bem-aventurança na terra.

A exceção desses raros instantes, sua irmã não nos deixava, e em presença dela Lúcia não me permitia uma carícia, por mais inocente que fosse. O dia se passava ouvindo Ana tocar, vendo-a brincar, e brincando com ela. Éramos três crianças; e delas talvez a mais moça fosse a que mais juízo tivesse naqueles alegres folguedos.

Uma tarde, havia poucos instantes que eu tinha chegado, quando Lúcia tomou-me pela mão, e levou-me ao seu toucador.

— Não entendo de negócios, me disse abrindo uma gaveta; e não sei pedir senão a ti. Toma; é a escritura de compra desta casa, que pertence a Ana: há de ser preciso pagar décima. Tira do dinheiro destes vales; do resto comprarás apólices em nome dela.

Examinei os papéis que Lúcia me dera; representavam um valor de mais de cinqüenta contos de réis; dez no prédio, o resto em dinheiro.

— E tu com que ficas? Longe de mim censurar a tua generosidade, minha boa Maria; mas não é justo que te sujeite, a passar privações.

— Eu também tenho a minha fortuna! disse-me sorrindo. Mostrou-me uma carteira, que eu lhe tinha dado.

— Queres ver? Olha! Foste tu que ma deste, Paulo! Guardei-a para o tempo em que fosse digna dela. Quando eu te agradecia então, nem suspeitavas que te agradecia pelo futuro, por este tempo