Página:Luciola.djvu/180

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


alma violentamente comprimida por uma terrível catástrofe; a vegetação de um corpo vivendo apenas pela força da matéria e do instinto; a revelação súbita da sensibilidade embotada pelos choques violentos que partiram o estame de uma infância feliz; a floração tardia do coração confrangido pelo escárnio e pelo desprezo; finalmente a energia e o vigor do espírito que surgia, soldando por misteriosa coesão os elos partidos da vida moral e continuando no futuro a adolescência truncada.

Quantas vezes absorto na admiração que me causava esse fenômeno, não acompanhava com um olhar pasmo e surpreso os movimentos de Lúcia brincando com a irmã, e criança como ela na expansão da beleza que eu vira radiar no mundo com todas as graças e encantos da mulher! Quantas vezes desesperado pela naturalidade do seu gesto e pela ingênua simplicidade de suas palavras, que excluíam a mais leve suspeita de afetação, não pensava comigo: «Esta mulher ou é um demônio de malícia, ou um anjo que passou pelo mundo sem roçar as suas asas brancas!»

Se ela surpreendia o meu olhar perscrutador, sorria, e caminhando para mim, movia lentamente a cabeça:

— Não compreendes, Paulo? Também eu não compreendo. Quem me fez menina assim ?. . . Devo-te parecer ridícula. Eu, que desejo ter para Ana a gravidade de mãe, torno"-me mais travessa do que ela, Mas que queres? É preciso que eu brinque... como as cigarras hão de cantar daqui a um ano quando acordarem!

O jardim da casa de Lúcia era dividido, por um gradil de madeira, da chácara vizinha. Isso a desgostara desde o primeiro dia; e era sua intenção