Página:Luciola.djvu/71

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— Tenha bondade de dizer: quem lhe deu o direito de pensar que me incomoda?

— O meu gênio! Desconfio de mim.

— Pois o seu gênio enganou-o; fique sabendo que o senhor nunca me pode incomodar a qualquer hora que venha aqui! Nunca; ouviu ?

— E quanto tempo durará isso?

— Ah! já lhe disseram que sou volúvel! Eles têm razão de o dizer; porém má como sou, ainda assim não me julgue pelo que lhe contarem.

— Não te julgo, nem te quero julgar. Conheço-te de ontem; de ontem somente, tu o disseste!

— Pois essa que fui ontem continuarei a ser, já que Deus não quis que fosse a outra, que viu da primeira vez.

— Não era mais bonita do que a desta noite.

— Quem sabe? Mas diga-me, continuou acariciando-me o rosto com a mão travessa; deveras pensou hoje alguma vez em mim, ou esqueceu-se apenas nos separamos?

— Tanto, que te trouxe uma lembrança.

— Ah! quero ver, sou muito curiosa!

Tirei as jóias e dei-lhe; o sorriso faceiro que despontava no lábio murchou de repente. Atribuí a excesso de curiosidade e atenção, porém ela abrindo lentamente a caixa, lançou-lhe apenas um olhar distraído, e deitou-a sobre a cadeira com uma frieza glacial e um desgosto, que transparecia entre a expressão de forçada amabilidade com que me agradeceu:

— Obrigada; não valho tanto!

Esse tanto foi dito com uma surda vibração, e profunda, como se a voz que o articulara houvesse ferido interiormente todas as cordas de sua alma. <<Cunha tinha razão, pensei eu; a cupidez e a avareza são