Página:Luciola.djvu/86

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— Não, senhor; não ha de vir todos os dias: Ah: supunha ?. . .

— Tinha-me enganado; não será a última vez.

— Já está me querendo mal; pois tenha paciência. Só há de entrar aqui duas vezes por semana: na segunda e na quinta-feira.

Ia interrompê-la recusando; ella tapou-me a boca.

—E ha de sahir nos mesmos dias; porém em vez de entrar de manhãa e sahir de tarde, entrará de tarde e sahirá de manhãa. Não lhe agrada?

—Então á excepção desses dous dias dtoda a semana é minha? disse não me cabendo de contente.

—Sua, não senhor, minha. Deixo-lhe dous dias para ver seus amigos...E não acha que é muito? Bastava um!

Ficou seria de repente:

—Assim ninguem desconfiará: não saberão onde está. Si lhe perguntarem, não diga, nem mesmo ao Sá. Elle seria o primeiro que me julgaria capaz de querer fazer com o senhor, o que tantas fazem com o homem que preferem. Gostão de mostra-lo no theatro, na rua, em toda parte!

Lucia, como vê, parecia adivinhar que me tinhão dito o Cunha e o Sá para desmenti-los completamente. Entretanto quando eu devia admirar a nobreza dessa alma; quando a mulher que accusavão de cupida e avara, affastava delicadamente uma questão mesquinha, entregando a sua vida a um homem que mal conhecia, cujo caracter e posição ignorava: o meu orgulho me inspirava uma sordida e estupida lembrança. Quiz responder a tanta dedicação mostrando-me tambem franco e liberal; mas não reflecti que eu era generoso de dinheiro