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Página:Maria Feio - Doida Não (1920).pdf/57

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existência pobre e humilde, junta-se agora a dôr pelo martirio que por minha causa ela está sofrendo.

— Mas quem sabe o que o destino reserva — repliquei tentando penetrar com a força magnética de um olhar perscrutador o mistério de aquela alma singular.

— Não sei, retorquiu o encarcerado, com um gesto de desalento e de dúvida. Não tenho grandes esperanças de que o processo nos seja favorável. Teem muita força as partes contrárias. Mas o que posso garantir a V. Ex.a é que, se a causa me fosse favorável, não me decediria a partilhar da fortuna do snr. Dr. Alfredo da Cunha. Por minha vontade, a snr.a D. Maria Adelaide, oferecia-a a uma instituição de caridade, e eu lançar-me-ia no trabalho, aqui ou na América, pata the proporcionar todo o bem-estar e confôrto.

Fiquei-me a olhá-lo a remirar o seu perfil, a sondar-lhe a fronte, a radiografá-lo com uma sede de verdade e de luz, como que querendo fixar na minha retina a projecção intima dos seus pensamentos, para me certificar se estava ali um sêr imaginário, uma alma de eleição, ou algum hipócrita que ludibriava a minha ingenuidade de idealista, para que ela iludisse o público.

O minucioso exame dava provas favoráveis.

Parecia-me que havia reverberos de espiritualidade elevada na fronte alta e esférica cuja palidez contrastava com os cabelos negros e ondeados. O nariz de traço direito, revelava-me as particularidades de talento atribuidas pela sciencia fisiognomónica.

Os olhos brilhavam em lampejos de inteligência viva, que uma vaga tristeza amortecia quando dissera: « Que tristeza, que saúdade eu senti quando recebi ordens de me retirar da casa desta senhora!... »

E falando da mãe declarava: