Os seus extremos eram para Belmira, que, muito reconhecida á sua benfeitora, nem por isso deixava de sofrer.
A baronesa tirara-a do seu meio, mas não pensara sequer por um momento em modificar a situação do pai da sua afilhada.
Belmira estimava o pobre homem que lhe dera o ser e via-o de sol a sol cavar a terra, vergado todo o dia ao trabalho, e carregando ás costas fardos de feno. Presenteara o pai com uma banheira, pedira-lhe para tomar banho todos os dias, mas nem por isso o pobre homem deixava de suar bestialmente e, quando see aproximava dêle, embalsamando o ar com o perfume dos seus vestidos, sentia uma impressão de desgosto da qual se censurava e arrependia, mas que não podia evitar. O feitor e os criados da casa chamavam-lhe «snr.a D. Belmira», mas, quando falavam com o pai dela, diziam: «Ó João do Poço, tu...»
Como era bôa rapariga, Belmira ia duas vezes por semana pôr em ordem a casa de seu pai. A pouco e pouco deu-lhe uma cama e os móveis necessários para a tornar confortável. O pai beijava-a reconhecido, mas os invejosos riam e diziam que a afilhada da baronesa queria tornar o pai fidalgo.
Êle contava á filha tudo que ouvia, como um desabafo. Ela fingia não dar importância e aconselhava o pai a não fazer caso; mas, quando á noite se recolhia ao seu quarto, chorava e afligia-se por se vêr deslocada, tanto no solar como na casa paterna.