Um dia saiu a passear com a madrinha e, na volta, a baronesa quiz apear-se da carruagem. Ela havia muito que não andava pelo seu pé na estrada e sentia um grande desejo, não só de andar, como de se ir sentar um pouco á sombra dos pinheiros no cimo do outeiro vizinho.
― ¿E não lhe fará mal a subida, madrinha?
― Nenhum, visto que tanto a desejo.
― Parece-me o caminho rude e ingreme demais para quem não sai ha tanto tempo.
― Não é; mas ainda que fosse, sinto-me velha e doente, Belmira, tenho pressentimentos de que morrerei cêdo e quero ir ali pela última vez. Foi á sombra daqueles pinheiros que o barão me pediu licença para procurar meu pai e dizer-lhe que queria casar comigo. Já vês que é justo que eu deseje ali tornar ainda uma vez.
Depois dum longo silêncio continuou:
― Já lá vão bons quarenta e cinco anos e parece-me que foi ontem! Então eu era uma rapariga bonita e interessante como tu. Tinha muito mêdo de todos os bicharocos e tremia á vista até dum gafanhoto. Estava sentada naquela pedra grande que daquí vês, quando, sentindo uma rostelhada junto de mim, vejo um lindo lagarto que me fitava com os seus olhinhos pequenos e vivos. Soltei um grande grito e subi para cima da pedra. Acudiu-me o barão que andava á caça das perdizes. E aqui tens como do mêdo dum lagarto saíu um casamento.