de o perder, ficou com um grande horror á mentira por ela ter merecido tão tremendo castigo e, com receio de ter a mesma sorte que o marido, deu, não só em falar sempre verdade, como em perseguir os mentirosos. Mas, com tanta fúria caiu no excesso de o fazer, que causou grandes desastres em toda a região, porque todos gostam que lhes falem verdade, mas raros são os que a empregam sempre quando ela pode lesar as suas conveniências pessoais. De novo se alarmou o povo e o rei teve de escutar novas murmurações. Castigar uma criatura por falar verdade pareceu ao rei uma cousa iníqua: consultou os seus conselheiros que recearam manifestar a sua opinião. Todos, no fundo, aborreciam a defensora da verdade porque a temiam, ¿mas condena-la que efeito faria ao rei?
«Foram pois unânimes na opinião de que se devia consultar o oráculo.
E o oraculo respondeu:
― «Se o marido foi condenado á morte por mentir, seja ela condenada a viver eternamente por falar verdade e perseguir constantemente a mentira.
«E aqui está como, desde então, a Verdade persegue a Mentira e nunca se cansa disso.»
Carlitos olhou espantado para o irmão e respondeu:
― Isso não é, não pode ser verdade. Um rei não pode condenar ninguêm a viver, porque a vida não está sujeita á vontade dêle: pode tira-la, mas não da-la. Isso só Deus.