um criado sacudia. A infeliz lembrou-se da opulencia, em que fora creada, e da súa pobreza presente. Se não fôra a gratidão de um negro, teria ha muito morrido de fome. Vinham-lhe depois ideias mais amargas ainda. Era alli que viveu vida innocente, e alli tambem que commettera a culpa que a desterrou do seu eden da mocidade. Ah! ella agora viu, como nossos primeiros paes, anjos exterminadores, à porta do paraizo, que lhe vedavam o ingresso. Estes anjos exterminadores eram o remorso, a vergonha e o temor.
Uma visão celeste como que afastou por um pouco da mente de Henriqueta pensamentos horrorosos. Uma senhora (que pela forma do corpo e elegancia do traje se conhecia ser moça) assumara á janella do seu antigo quarto de solteira. A infeliz quasi não respirou um momento; suspensa, immovel, enlevada olhava com vistas fixas aquella graciosa figura. Passado o primeiro momento apertou o seio com as mãos e articulou com gemidos:
― Meu Deus!.. meu Deus!.. é minha filha!.. a minha adorada Virginia!..