IX
de viseira calada por entre elles. Déra-a e creara-a a boa cidade do Douro. Vivia no remanso campestre, já de Moreira, já de Leça da Palmeira; chamava-se Maria Peregrina de Souza. Estava quebrado o encantamento. A historia litteraria tinha mais uma gloria feminina para registar; em hora boa a registou; os annos que seguiam até hoje não tem feito senão accrescentar-lhe o lustre. O ver-se conhecida não inspirou á nossa escriptora nem vaidade, nem cobardia. Tinha trabalhado, estudado, e produzido, sem ambição; como a silveirinha emboscada no vallado cria sem tracto de homens, e só por mercê do ar, da alva, do sol, e das estrellas, o seu verde e os seus botões, as suas flores e os seus fructos. Era assim de sua natureza. Continuou como principiara, e como ha de ir já agora até ao fim. Compõe como conversa, como pensa e como sente; sente com a delicadeza de mulher; discorre com a sisudez de moralista desenrugado; falla sem arrebiques affectados, mas deliciosa de ingenuidade; e é tudo isto e só isto o de que lhe formam debaixo da penna, sem ella o cuidar, os seus versos e as suas prosas, as suas narrativas e os seus discursos, as suas correspondencias, os seus artigos volantes, os seus voluminhos que ella não cataloga, nem conta, nem cita, nem relê, nem recorda por ventura.
E tambem, pergunto agora: de que havia ella de ter nem presumpção nem acanhamento? as suas obras não as fez ella; fizeram-se-lhe por si. Sairam-lhe do animo como a camphora sáe do lou-