XXVII
me alli em completa solidão, rodeada de quasi trevas, sem ouvir o mais ligeiro ruido! A's vezes pegava n'umas caveiras (que estavam nas pias de agua benta) e as examinava com profunda sensação; então não era sensação alegre, mas enchia-me a alma isso que sentia. Depois de crescida, conservei o mesmo gosto de intervallar melancolias no meu viver alegre e descuidado. Tinha paixão pela dança, festas, e theatro. Meus paes não me afastavam d'estas distracções, mas moderavam-lhes o excesso, e repetidas vezes me diziam: — Os divertimentos devem ser uma distracção, e não um modo de vida. Aos nove annos fiz eu um descobrimento muito triste. Tinha as bonecas guardadas á semana, e só aos domingos as desencaixotava; mas todos os dias lhes ia metter mantimento novo (biscoutos ou doces) e tirava para mim o da vespera. Um dia pensei que tinha um trabalho inutil, e a idéa de que ellas não comiam nem sentiam fez-me tal afflicção que não saberei descrevel-a. Deixei-as e nunca mais as vi com prazer. Fez-me falta aquelle entretenimento. A menina que deixa as bonecas cedo, sente por muito tempo uma especie de vacuo na existencia. Quando estava na aldeia desforrava-me correndo pela quinta, e saltando como douda; porque fui creança até muito crescida.
«A' leitura tinha eu tanto amor como á dança, mas achava-lhe as mesmas objecções da parte de meus paes. Como não era estudo, mas di-