Ir para o conteúdo

Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/35

Wikisource, a biblioteca livre

XXIX

para cá hoje; faziam-me rir. Tambem não sei em minha boa verdade para que se havia de escrever d'aquillo, como se nas realidades da vida não houvera já tristezas de sobejo. Parece-me que era melhor moda fazerem-se unicamente livros ou para instruir, ou para deleitar, ou para deleitar e instruir conjunctamente.

«De treze ou quatorze annos mandou-me minha mãe escrever a meu pae, que estava nas fileiras constitucionaes em Traz-os-Montes. Era então alferes de milicias. Fiquei eu sem saber por onde entrar, nem sahir. Até as fórmas de algumas das lettras de mão me tinham esquecido! Havia muito que não lia senão lettra redonda. D'alli em diante para me exercitar, pois senti toda a vergonha de não saber na minha edade expressar as minha idéas com a penna na mão, tomei a empreitada de escrever charadas minhas e alheias. Era a mania do tempo, ao menos cá na provincia; é provavel que na capital com tantos divertimentos ninguem curasse muito de tal frioleira, e d'ahi eu já ouvi dizer a alguem que Lisboa era uma aldeia grande.

«Por aquelle mesmo tempo uma minha amiga de quatorze annos de edade, como eu, deixou o Porto. Ajustamos entre os abraços e lagrimas sinceras da despedida, que nos haviamos de cartear. Assim o fizemos; mas como o fiz eu!... era a minha primeira correspondencia. Eu achava muito feio pôr-me a escrever como lhe fallava. Quantas cartas havia nos livros meus