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Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/37

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XXXI

da na parentella, mas já não era bem a mesma cousa.

«Meu pae era de uma bondade summa, e de uma razão muito clara. Minha mãe, além de boa, tinha uma alma poetica. Tendo eu sido dotada de um genio excessivamente alegre, foi-se-me este transtornando com as successivas desgraças de minha familia.

«Aprendi o francez já aos vinte annos, e então mais se entrou a mudar o meu gosto, porque me deram para ler obras de Chateaubriand, e outros livros d'estes que induzem a pensar, e inclinam o animo para a parte da melancolia. Uma lingua é um bello e grande instrumento intellectual. A acquisição do francez nada me custou; mas, ainda que me tivera custado muitissimo, valia bem a pena. Não era só que eu sentia alargarem-se os horisontes para os meus estudos, se os eu quizesse ou podesse fazer; é que até me encantava o comparar a diversidade nos modos de exprimir, que tanto extrema aquelle do nosso idioma; e deixe-me confessar-lhe aqui em segredo que, desde que entrei a comprehender com facilidade e exacção aquelle expressar tão outro d'este a que vivia acostumada, entrou-me a parecer que havia talvez n'elle o que quer que fosse de mais elegante e civilisado. Talvez, a final de contas, não fosse senão o rifão de, a gallinha da visinha. Só annos depois é que tomei gosto aos nossos classicos; logo que me passou a febre do francez. Quando o