XXXII
aprendi, creio que até pensava em francez. E n'este idioma escrevi alguns romances; (grandes são as afoutesas de quem sabe pouco!)
«Creio que teria muita facilidade em aprender a ler e escrever diversas linguas, e muito pouca para as fallar. Não me era possivel, quando estava mais senhora do francez, falal-o com quem sabia portuguez. A' terceira ou quarta phrase já lhe eu respondia como boa minhota que não renegava o fallar da sua terra. Nunca jámais conheci que tivesse negação para aprender fosse o que fosse; nas nunca tambem vi em mim grande propensão para uma arte ou sciencia qualquer. Sou como o homem de trinta officios, que não é mestre em nenhum, e morre de fome.
O que me deu a idéa de escrever contos ou romances foi uma Bona que li em francez. Vem n'esse livro um conto composto por uma menina; e aconselhava a Bona que as meninas, para se entreterem, escrevessem aquillo para que tivessem mais geito. Fiquei contente e admirada. Tinha eu os auctores por semideuses, e não podia imaginar que uma mortal podesse pegar na penna, a não ser para escrever uma carta ou algum rol. De muito nova, isto é de cerca dos 20 annos, comecei pois a engendrar os meus romances; mas por muito tempo só as minhas mais intimas tiveram d'elles noticia.
«Depois que meu pae se deixou do commercio, e foi administrar um concelho rural, é que me entreguei com mais afinco aos romances,