XXXV
os hospitaes de sangue, fez n'ella tão afflictiva impressão, que chorando, com os olhos em mim e minha irmãsinha, que choravamos ainda mais pela ver chorar, obteve de meu pae que partissemos, logo, logo, para a nossa quinta de Moreira. Começou então para mim um periodo de desgraças, como para muita gente. Que dia de tristeza não foi o seguinte! Com a magoa de estar mal ferido um antigo amigo, o capitão José Ferreira de Lima, e a ouvirmos continuamente a fuzilaria e as peças, ninguem comeu nem dormiu n'esse dia e no seguinte. Como eu tinha visto alguns feridos na vespera, parecia-me ver os montes e valles alastrados de corpos exangues. Fomos vivendo depois uns dias tristes e afflictos, outros esperançosos, com as muitas patranhas, que então se mercadejavam barato, e por toda a parte. Era meu pae infelizmente sargento-mór das ordenanças, o que elle pedira para se livrar das milicias. Veio-lhe ordem de D. Miguel para armar o povo. Obrou uma grande imprudencia, contra o seu costume. Não armou o povo, e creio que nem respondeu ao officio do general. Cae-lhe de madrugada em casa uma guerrilha; levam-no preso. Não quiz elle seguir n'aquella conjunctura o conselho de minha mãe, que lhe dizia, se recolhesse ao Porto, ou se homiziasse; suppunha elle, com razão, que, se assim o fizesse, a familia e a casa padeceriam muito. Mas que triste acordar não foi o d'aquelle dia em que o levaram preso!... Minha mãe viu-o sair de
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