Ir para o conteúdo

Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/46

Wikisource, a biblioteca livre

XL

ao que o não tem. Quinze dias depois da morte de minha mãe, estava eu deitada, e senti-me abraçar. Era meu pae, que tinham deportado para Vizeu, e que de lá fugira. Vinha passar em casa comnosco dois dias e trasladar-se para o Porto, onde o cuidado dos seus negocios o chamava. Que alegria tão triste a d'aquella suspirada visita! Os seus olhos pareciam pedir a cada uma de nós, a cada porta, a cada recanto da sua casa, a cada arvore da quinta, a esposa que elle ainda não podia acreditar haver perdido; e caindo em si, como reliquias d'ella, nos abraçava. Agora choro recordando-me d'isso; então concentravam-se-me as lagrimas no coração.

«Depois d'esta catastrophe ainda residimos todos no Porto por algum tempo, finalisada já a guerra; e de lá nos trasladámos para Moreira na Maia, concelho de que meu pae foi feito administrador; aqui vivemos annos felizes. Procurei a paz do retiro e a ventura da solidão. Diverti-me estudando o italiano e inglez sem perceptor. Já se póde ver que progresso eu faria. Entendia apenas o que via escripto n'estes idiomas. O meu pequeno piano tambem me entretinha ainda que seu sabia pouquissimo de musica.

«Os livros, sobre tudo, faziam que os dias fossem para mim pequenos no verão, e as noites de inverno breves. Lia então livros melhores. Foi por esse tempo que me atrevi a mandar alguns romances para o Archivo Popular, mas anonymos; e escrevi ao redactor da Revista Uni-