que a fortuna caprichosa costuma cegar com a prodigalidade de seus favores, para depois arruinar em um momento. Foi rico, muitas vezes millionario; mas, liberal até ao excesso de prodigalidade[1], julgando eterna a aura da felicidade, não soube tirar proveito de riquezas, que a final forão causa de sua desgraça. Mineiro sempre feliz e ousado, embora as vicissitudes[2] e revezes de mineração, que a outrem intimidarião, arriscava-se nas emprezas as mais diíficeis, só confiado na sua estrella bem fadada.
No anno de 1735, logo depois do descoberto das minas ricas de Goyaz, foi elle residir em Villa Boa (cidade de Goyaz), Ahi teve começo a sua fortuna. Dotado, porém, de caracter fogoso e facilmente irritável, no anno de 1744 comprometteu-se em desavenças, que ali houve entre os cobradores dos quintos e o povo, cuja causa abraçara com seus irmãos; por esta razão retirárão-se para Paracatú, cujas minas acabavão de ser descobertas. N'aquelles tempos, quando os sediciosos[3] retiravão-se do lugar da discórdia, tudo ficava esquecido: não se tratava mais de perseguil-os.
Em Paracatú Felisberto Caldeira Brant tirou na mineração uma riqueza fabulosa: cada um de seus trabalhadores dava-lhe diariamente dezesete oitavas de ouro. Mas seu gênio aventureiro ainda não estava satisfeito. Ambicionou maiores riquezas, e veio para o Tijuco arrematar o terceiro contrato dos diamantes.
O contratador arrematou a extracção dos diamantes, por tempo de quatro annos, com seiscentos escravos, mediante a capitação annual de 220$000 por cada um, com as mesmas condições dos contratos anteriores; devendo porém quatrocentos trabalhar no districto demarcado da comarca do Serro Frio e duzentos no novo descoberto diamantino de Goyaz. Para o lavor da estação da secca forão-lhe designados o leito e gupiaras[4] do Jequitinhonha da lavra do Mato para baixo, o rio das Pedras e ribeirão do Inferno; e na estação das aguas poderia trabalhar nos corregos, gupiaras e terras visinhas, que lhe fossem demarcados pelo intendente. A demarcação feita por este foi a seguinte: « Da casa de Pedro Joaquim de Azevedo, cortando direito á passagem do rio das Pedras, na estrada que vai d’este arraial ao Caetémerim, entrando os