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ESDE então vem a mulher atalhando as tentações do homem. E este, para conquistal-a, usa sempre, desde millenios, os mesmos modos, os mesmos processos, as mesmas palavras, as mesmas promessas. O "desde o primeiro momento em que te vi", vem da Pedra Lascada. O "por ti darei a minha vida" é plagio do que já disse Adão... que, aliás, nunca deu a vida por Eva, nem por ninguem. E, principalmente, a tentação das joias, é que, positivamente, se perde na “noite dos tempos" Entre o "homo" das cavernas e um "almofadinha" dos salões, o parallelismo é desconcertante. Aquelle, cavalgando o mamute e este conduzindo o automovel, teem para a mulher as mesmas promessas; o primeiro offerecendo um annel de osso, o segundo acenando com um collar de perolas. Fazem-se, assim, inferiores á mulher, pois a joia é o contrapeso que os equilibra com ella. Diminuem-se. Rebaixam-se. Tornam-se ridiculos, sem a joia !

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OUVE na Historia, é certo, periodos indeterminados em que a mulher, lamentavelmeute, confundiu gemmas de joalheria com gemmas poeticas. Esses periodos intermittentes manifestaram-se mais profundamente nos dias nebulosos da Edade Média e tiveram seu ponto culminante ahi por volta de 1830. E' verdade que, na época mediéva, a ausencia do marido, enupenhado em desbaratar infiéis na Terra Santa, auxiliava o effeito narcotisante dos descantes lyricos do menestrél. Mas, na madrugada do seculo XIX, a poesia era um "caso sério", e um poeta decentemente choramingão, com suas rimas e seus queixumes, conseguia da mulher o que hoje difficilmente se consegue com um bangalô de luxo e um auto de seis cylindros. E, na Grecia autiga houve um periodo, tambem, em que o poeta só encontrava um homem que o desbancava : o lutador.

Mas foram excepções que confirmaram a regra.

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SSIM, pois, seguindo o exemplo subtil da Sciencia, que nada explica, e certos de que a Historia é um longo romance com muitas datas, façamos, paginas adeante, fantasias gaiatas sobre o periodo nevoento da Humanidade primitiva e, sobre os tempos historicos, supposições accórdes com o que sabemos.

E, volvendo estas paginas, o leitor verá que não sabemos nada. Mas a culpa não é nossa. Não somos historiadores gravebundos. Somos, apenas, alegres observadores. Não se pretende tirar licções moraes – valha-nos Deus ! - mas apenas sorrir um pouco á custa do Amor, essa "coisa estranha" que atravessa os seculos, sempre intangivel e invariavel. Se não fossem os Codigos, e a Policia não lhe tolhesse os instinctos, o homem agiria sempre, deante da mulher, com o mesmo furór com que agia o "homo" da Edade do Ferro, o huno do tempo de Attila, ou o "gaulez" de Vercingetorix...

Porque a Civilisação faz os Codigos, altera os costumes e refrea os instinctos. Mas não os mata. Supprimam as leis e o bestialismo campeará, infrene. Dentro de cada um de nós dorme um Satyro insolente que acórda, ás vezes, na rua, no cinema ou no bonde, que entreabre um olho maroto, mas que não salta porque o policia está alli na esquina, a observal-o... Isto quando o Sałyro se manifesta isoladamente num ou noutro individuo. Ha occasiões. po-