diário, regulamentado pela previdência carinhosa dos pais, é abrir, cá fora, ensejo a vícios, a dolorosas desilusões e a muito atropelo, legal e moral.
Não se elimine, pois dos nossos costumes concelhios esta tradicional escola: antes se avivente e impulsione, como sendo o nervo da solidariedade doméstica e da austeridade de carácter.
Continuem as nossas mulheres a confeccionar, na sua roca e no seu tear, o linho - o branco e fresco linho - para uso caseiro, adestrando, neste e noutros misteres familiares, suas filhas, e verão como as seduções do luxo hão-de ficar reduzidas aos seus justos limites.
A limpeza e o asseio são virtudes: o luxo é um vício.
Creiam que a cutis, rosada e sadia, da rapariga do campo, vale mais do que o almiscarado pó de arroz, com que a doidivanas da moda costuma mascarar o desmaiado pé de galinha de muita pretensiosa, dos teatros e dos salões.
O censo de 1900 acusa uma população de 13.020 almas, assim distribuídas: sexo masculino-5.765; feminino -7.255.
Se não fora a voluntária expatriação para o Brasil, seria muito mais elevada aquela cifra.
«Voluntária expatriação», disse!
Quanto tem de cruel aquela voluntariedade!
Uma importante parcela de braços úteis e vigorosos da população rural, é sacrificada, naquela república, por causa de uma fascinadora ilusão, ou sugestão de riqueza, precedida de uma enervante desesperança de obter magra subsistência na terra-mãe.
Daqui, a intensa emigração[1].
E, entretanto, o concelho é, verdadeiramente fértil, e já o era desde séculos, como atesta o facto de, na guerra da restauração (1640-1665), quando este concelho foi escolhido para centro de operações militares contra a Galiza, chegando a ferir-se aqui a gloriosa batalha da Travanca e reunirem-se forças importantes, nunca faltarem víveres para elas, nem ser preciso importá-los[2].
Era neste concelho que se preparava o abastecimento da guarnição de algumas praças da margem do rio Minho[3].
Confirmando este conceito, escreveu J. A. de Almeida "no seu «Diccionario Chorographico»:
- ↑ No ano de 1904 emigraram 140 pessoas, em 1905-91, e em 1906 - 104, sendo, ao todo, 260 varões e 75 mulheres. Deve notar-se que neste número não entram os que emigraram clandestinamente, que não são poucos.
- ↑ Posteriormente, para o empréstimo nacional de 1801, só concorreram dois prestamistas, não obstante ser convocado todo o povo pela Câmara Municipal. Esses prestamistas foram os abades de Cunha - José António de Sá Sottomayor Leones, com 24.000 rs. e o de Infesta - Francisco da Cruz Pias, com igual quantia. O povo alegou, então, que estava pronto a concorrer com sua pessoa e bens, mas não com dinheiro, porque não tinha reservas. (Liv. dos registos, no arquivo da Câmara). Modernamente, há um facto que bem mostra a grande produção cerealifera do concelho. É este: em Fevereiro de 1870, a Câmara Municipal oficiou à Real Associação Central, solicitando a sua intervenção junto do Governo, para este apresentar um projecto de lei que reprimisse o «contrabando de cereaes», por isso que, enquanto em Lisboa havia falta deles, «em Coura definhava-se no meio da abundância, porque estavam as celleiros cheios e ninguem os procurava». (Copiador da correspondência de 1870, no mesmo arch.).
- ↑ Voz de Coura de 25 de Maio de 1907, n.° 169, artigo do sr. CunhaBrandão.