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Página:No Alto Minho Paredes de Coura.pdf/28

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fita alvacenta - a estrada real n.º 24, e os campanários de brancas igrejas, e os campos em flor e as muitas serranias da Galiza, distendendo os colos até à «Guardia».

Acentuado trecho de paisagem minhota!

S. Silvestre!

Foi no dia 31 de Dezembro, de há muitos anos, por formosíssimo dia, sereno, tranquilo, como tudo que jazia em redor da montanha, que eu presenciei - surpreendido e maravilhado - um fenómeno atmosférico, como só poderá ser observado por quem, suspenso na barquinha do balão, for subindo, subindo, subindo... até navegar sobre o dorso doirado das altas nuvens, no estonteante oceano do ar.

Um lençol enorme, para lhe não chamar mortalha, de muitos quilómetros quadrados, feito de densos farrapos de nevoeiro, alastrara, rapidamente, ao fundo, sobre a parte baixa do concelho, direcção sul, chegando a Cerveira, Caminha e serra d'Arga.

Debaixo desta farta túnica cinzenta devia existir a sombra, a melancolia, porque ela interceptava a luz, os raios solares: e por cima via eu, com os amigos que me acompanhavam, ligeiras ondulações, como ténues vagas do mar, onde se reflectia uma bela luz anil.

E estas ondulações apertavam-se em longas camadas e eram súbtis, de ligeira gase, onde se espelhava o sol, do alto.

Uma folha do grande livro da natureza, ostentando duas páginas contraditórias - a treva e a luz!

Os campos, os montes, as águas, envolvidos naquela mortalha de tristeza, existiam para mim, porque os retinha na memória, que da vista tudo desaparecera, quasi instantaneamente, como cena de mágica; e contudo, na página superior, lá estava «S. Silvestre», a capelita, a realidade, a luz.

Plena solidão, que não era bem a do mar, nem a do espaço indefinido; pois não sugestionava a vertigem do abismo, nem o receio da asfixia pela água.

Empolgante quadro!


A subida para o monte não é fadigosa, tomando-se o caminho de Venade, povoação serrana, da freguesia de Ferreira, deitada ao sopé da montanha, que corre de norte a sul.

A meia vertente, olhando para o meio dia, pode o meu companheiro, imaginário, de jornada, observar as graciosas povoações de Formariz, Infesta e outras, as encostas profusamente arborizadas, e as flexas de muitos campanários, encravados nos diversos canteiros deste jardim da natureza; e, na linha do extremo horizonte, envolvida em frouxa neblina azulada, a serra de Arga - a montanha santa -, tendo encostados a si, correndo na mesma direcção, os montes que se vão levantando de Romarigães e de S. Martinho de Coura, como bancadas sucessivas, assentes em larga praça.

«Arga»! Outrora semeada de cenóbios, de grutas religiosas, de casas de oração, de anacoretas, que fugiam da cilada social, para ali, por entre fráguas afiadas, conversarem, no silêncio do ermo, com a Divindade!

«Arga»! O altíssimo monte, de que reza a Divisão dos Condados de D. Fernando, de Leão, e onde, no século VI, The fazia sentinela, em alcantilado píncaro, o Mosteiro Máximo!

Foi nesta montanha, reza a lenda, que o «Aginha» - emérito salteador - redimiu os seus crimes, pelo martírio.