Será esta a serra Medullio dos romanos?[1] Ficar-lhe-ia por certo a antiga cidade de «Benis», se teve existência real?[2]
Caminho de Insalde, rumo nordeste e vamos seguindo para um dos pontos mais altos do concelho - o cerro do «Cotão» por entre fechadas e frescas devezas de umbrosas carvalheiras, que nos protegem contra a incidência afogueada dos raios solares, que se esbatem no copado arboredo.
Estamos na serra da Boulhosa, caminho do Estremo.
As pilecas, ofegantes pelo calor de Julho, vão chouteando, cadenciadamente, insensíveis ao acicate.
Duzentos metros mais e defrontaremos com o Cotão, que será o términus da nossa caminhada.
A trilha, aberta na macia relva, é suave e dá a impressão de fofo tapete.
Apear, pois; e as montadas irão forragear no verde e aromático feno do cerrado próximo.
Nós - eu e o amável leitor - iremos subindo o resto da encosta noroeste, a pé.
Eis-nos no alto do cabeço, a 844 metros de altitude.
Horizonte desafogado, largo, interessante e variado na paisagem, tintas e colorido.
É esta a primeira impressão ao evolucionar da vista, sem a prender, nos seus voos rápidos, às multiplices tonalidades do majestoso espectáculo, que nos deslumbra.
A leste, os massiços da Peneda e de Melgaço, onde se vislumbram uns lugarejos, meio escondidos nos seus recortes e ravinas.
A sudoeste, como que caindo das montanhas, começam a desenhar-se as várzeas do concelho dos Arcos de Valdevez, as quais vão seguindo duas sinuosidades esfumadas - o rio Vez e a estrada para Monção. - Cabreiro, Vilela, Gondoriz, Couto, Ázere e Giela, são freguesias que se estendem, graciosamente, na margem esquerda do rio, cujas águas se tingiram de sangue, diz a tradição, na «Veiga da matança», pouco abaixo da vila, quando ali se feriu uma «batalha» entre portugueses e castelhanos[3].
Ao largo, para o sul, a antiga vila de Vice, da qual conservo saudosa recordação, desde os tempos em que nela fiz a iniciação da aprendizagem do «qui, quae, quod», na aula régia do ríspido professor José Maria da Cunha, em 1863-1864.
A minha pousada era na casa de uns bons parentes meus, da freguesia de Giela, que me receberam e trataram amoravelmente e cujo chefe tinha sido sargento miliciano de D. Miguel, a quem serviu não platonicamente, mas batendo-se nas campanhas fratricidas, donde trouxe duas formosas condecorações: uma bala de fuzil, num pulso, e
- ↑ «Portugal Ant. e Moderno», vol. 5.º, pág. 157: «Era, pois, o monté Medulio no paiz dos Bracaros e segundo as suas confrontações...não pode deixar de ser a actual serra de Arga». Nesta serra existem muitos vestígios de edifícios e fortificações, e até da célebre «cava», de que fala Orosio. Esta «cava» tinha 4 léguas de extensão e foi mandada fazer pelos legados romanos Antistio e Firmio, para dominarem e vencerem muita gente que se tinha refugiado na serra».
- ↑ Argote, «De Antiquitatibus», pg. 122.
- ↑ Teve lugar entre as forças de D. Afonso Henriques e Afonso VII de Castela em 25 de Junho de 1128. Dizem outros que não foi batalha, mas um recontro, apenas.