dois dedos de menos, num pé, que o estilhaço de uma granada lhe amputara. A enfeitar tudo isto, feroz reumatismo o acompanhou à vala comum.
Todos os dias fazia eu o itinerário regulamentar para a vila pelo pontelhão da Valeta.
Às vezes, porém, na quadra invernosa, o río engrossava tanto, que tomava impossível a passagem a pé enxuto, porque as águas, galgando o pontelhão, dificultavam a sua travessia.
Valia-me então, quando a tormenta me surpreendia na vila, um bom e santo comerciante - António Vaz -, que punha à minha disposição um seu marçano, sobre os ombros do qual eu cavalgava, para transpor o difícil pego.
À memória, pois, do honrado comerciante aqui deixo o testemunho, agradecido, da minha veneração, pelos favores que ele e os seus dispensaram ao bisonho «caloiro».
Na aula de gramática latina foi meu primeiro «decurião» o Sr. Teixeira de Queiroz - um laureado nas Letras - que nelas se chama Bento Moreno.
Por isso, ainda quero muito à terra de Valdevez, embora não me lembre se o meu decurião me alumiou, por fortuna, o caminho do estudo com os olhos da milagrosa Santa Luzia, cujo culto se dilatava, então, por todo o país, tendo, aliás, no distinto professor fervoroso devoto.
Se fora vivo, podia depor, sobre o facto, o Padre Francisco Sequeiros, da casa de Vidão, em Coura, cujas mãos, por causa de certa lição, não ficaram em lençois de vinho, mas da cor do mais retinto, que produz esta bela região.
Aí está, porém, o dr. António J. Alves de Melo, Director não sei de que Escola na terra das clássicas frigideiras - Braga -, e o também dr. Silvestre Saraiva, já então valentaço, que, se forem chamados à barra, hão-de sustentar, convictos, esta tese: «O professor José María da Cunha era tão bom latinista, como destro adorador da férula.»
Silvestre Saraiva, porém, levava-nos as lampas nos santos exercícios ferulenses: se não tinha, parecia que as palmas das mãos estavam forradas de sola.
Era impassível no martírio!
Bons amigos, perdoai a minha tagarelice: quiz, apenas, registar, aqui, os vossos nomes e, com eles, o da vossa terra natal, de que não posso, nem devo esquecer-me.
Continuando: O «Cotão», como gigante selvagem, vai alongando os braços, ingentes, pelo concelho de Coura, e, na sua passagem, abraça, em largos amplexos, as povoações que encontra até ao mar, tomando diferentes nomes.
É severo, cheio de imponência e majestade, o panorama que ele nos oferece; e quem aí estiver, quando o sol vai atufar-se nas salsas águas, verá por uma nesga do horizonte, aberta por entre montanhas, como que uma enorme fogueira, de clarões avermelhados, na direcção de Caminha.
É o grande espelho do oceano, reflectindo as últimas fulgurações sanguíneas do astro-rei.
Não se traz do «Cotão» a impressão de uma paisagem delicada, fina, burilada em moldes de miniatura, senão a repercussão de um quadro austero, empolgante pelo rasgado das linhas e largueza de contornos.
Faz lembrar um Sinai, trovejando na sarça.
Perante este espectáculo, quasi se chega a desculpar um assomo panteísta.