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Página:No Alto Minho Paredes de Coura.pdf/32

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Bico» faz lembrar, visto de distância, uma fortaleza desmoronada, um desmantelado Castrum.

Nunca há-de esquecer-me que, ao atravessar da freguesia de Miranda para a de Castanheira, fui surpreendido, nesta montanha por nevoeiro tão intenso e cerrado, que, perdido o caminho e desnorteado, andei errante desde as 5 horas da tarde até às 11 da noite, sempre à espera de ir de encontro a um dos seus penedos, ou de ser sepultado vivo nas guelas de algum barranco, aberto pelas águas!

A nevoeirada transformara-se, depois, em catadupas pesadíssimas, que me fizeram crer que de novo se tinham aberto as cataratas bíblicas. As trevas eram as do abismo, as torrentes faziam-me prever que, como a barca de Noé, eu seria levado por elas, visto não haver meio de poder alcandorar-me no próprio «Corno de Bico», que talvez seja algum bloco, que por lá ficasse com esta configuração e donde o monte tirasse o nome.

Uma ânsia horrorosa! «Horresco referens»!

Que longas e infinitas horas! Ensopado em água até à medula, sem uma réstea de luz para me nortear, sem uma estrela que me alumiasse, preso à rédea da montada, da qual, prudentemente, tinha apeado, sentia-me desfalecer, lembrando-me de que, para cúmulo de desgraças, podia ser triturado nas fauces de algum lobo, que também os havia na hórrida montanha.

O acaso, porém, bendito seja ele! depois de tanta ansiedade, precipícios e perigos, que tinham posto em jogo a minha vida, deparou-me uma quebrada, onde, havia anos, eu passara, com o meu parente e amigo dr. António Pereira de Sousa, considerado médico em Melgaço, caçando às perdizes, a qual me foi pista para poder abordar à igreja de Bico.

Agora desforço-me, imprecando este «Corno de Bico» com todas as maldições do Averno e previno o meu benevolente leitor de que tenha cuidado com ele em dias nevoeirentos.

Quem sabe se outra vítima lhe atirou para cima da lombada com a denominação que tem, decerto anátema cruel?

«Corno de... Bico»!

Dois qualificativos... para ficar bem patente a sua índole traiçoeira.


Travanca

Manhã tépida e carinhosa. Avesitas a gorjear os hinos da primavera; o mês das flores e das lavradas: Maio.

Vamos à «Travanca»? É ao sul e corre de leste a oeste.

Saúdo-te, histórica montanha e quisera beijar-te! porque tu e a humilde capelinha de Cerdeira[1] sois as testemunhas seculares que, atravessando as idades, ides relembrando um glorioso feito de guerra da antiga alma portuguesa, que teve por teatro a encosta leste da montanha!

A religião da natureza e a religião do altar deram-se as mãos para testificar da valentia de nossos pais, quando nos memoráveis dias 9 e 10 de Agosto de 1662, sob as ordens do Conde do Prado D. Francisco de Sousa, batiam


  1. Povoação montanhosa da freguesia de Cunha, situada na encosta da Travanca.