A modesta capela de Cerdeira é o seu padrão: não nos maravilha pela imponència do alçado, mas é motivo de desvanecimento para esta terra, que tantos serviços prestou ǎ pátria, durante a guerra da Restauração.
Cumpre, pois, não descurar a conservação desta relíquia veneranda - a capela de S. Lourenço de Cerdeira; e à Câmara Municipal incumbe velar por ela, como padrão de glórias concelhias.
Acresce que o espírito popular, para explicar, em certo modo, a importância do feito, bordou-o com uma lenda maravilhosa, ainda conservada na tradição local, como pessoalmente verifiquel.
A lenda é esta: a batalha da Travanca iniciara-se a 9 de Agosto, ficando indecisa. Na noite de 9 para 10 apareceram iluminadas, miraculosamente, as pontas do gado manadio, que pascia no monte e que, então, costumava ser muito numeroso. O inimigo, observando o estranho caso, supôs serem soldados portugueses com luzes; e intimidado com tamanho exército, bateu em retirada no dia 10, sempre acossado pelos nossos.
Foi S. Lourenço, continua a lenda, que, por esta forma, quis assinalar o dia que a Igreja lhe consagra (10 de Agosto), manifestando-se a favor dos portugueses[1].
Esboçada a parte histórica da Travanca, vamos à sua crista - a 702 metros de altitude.
Domina esta serra todo o baixo concelho, servindo- -lhe como que de atalaia; e do ponto em que nos encontramos, o seu horizonte abarca grande parte dos concelhos de Cerveira e Ponte do Lima. O horizonte é, com efeito, largo, mas o que, principalmente, prende a nossa observação de «touriste» são os montes internos do concelho. Dir-se-ia uma grande tela coberta de ondulações.
O melhor percurso para a Travanca é a estrada municipal desta vila a Ponte do Lima, pois, apeando-se na «Bouça Redonda» (limite entre os dois concelhos), está-se na encosta leste da serra.
Como estamos perto, sigamos para o «Carvalhal», continuação poente da Travanca.
No regresso, viremos ao moinho do Túmio, para tomarmos, em Cunha, o carro que nos levará à vila, onde nos espera a hospedagem da Sr.a Miquelina, que manda servir aos seus hóspedes abundantes e suculentas refeições, já reclamadas pelo rebate da nossa viscera estomacal, cujo funcionamento se apressou com o passeio e com o ar puro, tonificante, da montanha.
E, depois; a boa hospedeira está para a nossa terra como o antigo Matta para Lisboa: quer que a sua clientela coma bem.
Mas vejamos o monte do Carvalhal: defronta com a serra do Formigoso, havendo entre ambos duas Portelas - a grande e a pequena, - que dão comunicação deste concelho para o de Ponte do Lima.
Ali, abaixo, estão fugindo para o ar as flechas de dois campanários, que parece nascerem da copa escura dos pinheirais da encosta sul.
É o majestoso templo do Socorro, onde no 1.º Domingo de Julho tem lugar a afamada romaria deste nome, na
- ↑ Esta lenda não é privativa desta localidade (Vide freguesia de Cunha).