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Página:No Alto Minho Paredes de Coura.pdf/37

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A «Chā das Pipas»!

Fale João Chagas, o inconfundível, o original escritor das gazetas: «A Boulhosa é uma alcandorada varanda sobre o vale de Monção, mas não é na realidade um vale que se vê de cima. É um pedaço da superfície da terra, com a sua exacta configuração. No momento de atingirmos essa alta cumiada, varrida pelas ventanias do espaço, o dr. F..., que levara um binóculo, descreveu-nos o vale... Eu, porém, não lhe dava atenção, todo ocupado a olhar a terra, a ver se via mover-se a terra, porque a impressão que sentimos quando ascendemos a tão elevados cimos não é topográfica, ou pitoresca, ou pictoral, mas vagamente, nebulosamente, misteriosamente planetária».[1]

Obrigado, meu excelente amigo, pelo seu inapreciável reclame.

«Da enxurrada, da molha, da terra sem habitantes, sem casas, sem esperança de abrigo, arrastando uma pobre alimária que não quer andar, - de essa situação de vencidos -»...[2], nada direi. De ofício, sei guardar sigilo...

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À raiz da Chā das Pipas levanta-se o lendário Castelo da Furna, outrora de Frayam, colossal agregado, irregular, disforme, de enormes blocos graníticos, encostados, sobrepostos, de forma caprichosa, figurando fantasmas descomunais que a natureza para ali tivesse atirado, em arrancos ingentes, quando no ventre lhe referviam ígnias matérias incandescentes.

Contém repartimentos naturais, abrigados, constituídos pela rocha, os quais, na lenda popular, já serviram de aposento a uma formosa princesa e... a mouras encantadas. E é por isso que a uns recantos de terra, por entre o fraguedo, o povo deu designações românticas e sugestivas, como «Horta da Rainha».

As feras, quando por ali as havia, iam acoitar-se nos fundos e escuros meandros da penedia.

Em redor deste castelo bordou o lirismo popular um enredo de cenas amorosas entre o Rei de Aragão e sua esposa Aragúncia, que tem sido recopilado por diversos escritores.

É que o povo há-de ser sempre o eterno sonhador, o poeta da natureza e das dores da alma!

Há já bastantes anos, acompanhando o Sr. Cons.º dr. Bernardino Machado, cuja rijeza dos músculos locomotores não é inferior à sua rijeza moral, fomos à «Furna», fazendo o percurso a pé, e dentro de um dos mencionados compartimentos do «Castelo», onde a hospedeira natureza colocara uma mesa de pedra, saboreamos apetitoso e fornido almoço, que a Ex.ma Sr.ª D. Maria Dantas, com o seu gentil e distinto savoir faire, ali nos mandara.

Nunca poderei esquecer que, de regresso, seguindo nós pela freguesia das Poreiras[sic], observamos que corria, açodadamente, no nosso encalço, uma mulher.

Paramos e esperamos. Que pretenderia ela dos excursionistas?

Era nova, menos de 25 anos, feições correctas, porventura distintas, rosto branco com uns toques acarminados


  1. A caravana, que acompanhava o inimitável-publicista, compunha-se do sr. Conselheiro dr. Bernardino Machado, seus filhos António, Miguel, Bernardino e Domingos, José Bacelar e quem isto escreve.
  2. «Primeiro de Janeiro», ano 38.º, n.º 213, de 8 de Setembro de 1906: «As minhas razões».