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Página:No Alto Minho Paredes de Coura.pdf/43

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Quintas», dois quilómetros da vila, sob o docel de folhagem das suas copadas carvalheiras.

Olhai para o «Taboão» - esse extenso lago de prata que vos fica aos pés - , refrescai os pulmões, em haustos tonificantes, com a ligeira brisa, que perpassa sobre a face deste límpido espelho, encrespando-lhe as águas, e depois julgai se este retalho da natureza não convida ao...dolce far niente.


--imagem-- Ponte de Mantelães

Vamos andando. Estamos em Mantelães, sobre a lendária ponte de boroa de unto. Debruçai-vos no seu elegante gradil de ferro, escutai o batelar do motor hidráulico da próxima e conhecida fábrica de lacticínios, a afinar, em rumorosa gama, com o marulhar da corrente: voltai-vos, de seguida, para todos os lados e tereis um quadro novo, vivo, flagrante de intensa beleza.

«Chega-se a ter vontade de pedir, de empréstimo, à natureza esta deliciosa paisagem, para nunca mais lha restituir. Admite-se o roubo com uma jóia desta natureza.»[1]

Ao nascente, um lago, que acaba; ao poente, outro lago, que começa; ao sul, o giestal em flor, a estrada real para Infesta, e ao norte, em anfiteatro, o painel mais brincado e característico de uma ridente aldeia - «Formariz de cima».

E, para nada faltar, até a lenda, com a poética simplicidade da imaginação popular, fazendo ver na imagem da lua, espelhando-se no cristal das águas adormecidas, opulenta «boroa de unto», conspira para tornar este sítio uma verdadeira jóia bucólica, dando à remoçada ponte uns ares de castelã fidalga, que ali estivesse a modular canções amorosas em noites luarentas.

Dantes, a pouca distância, havia a Torre Airosa, e depois edificou-se o primeiro Paço do Concelho, de que nada resta, a não ser a memória.

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Mas vamos seguindo e observando o nosso rio até ao Crasto de Bruzendes, estação arcaica, porventura pré-romana.

Primeiramente, encontraremos o Poço do Alves, em Formariz, onde os peixes - trutas, vogas e escálos - saltitam, em tardes de Agosto, vindo apanhar ao lume da água a descuidosa borboleta ou o importuno mosquito.

As dezenas, as centenas, os infindos círculos concen-


  1. «Minho Pitoresco», pag. 126, 1.º vol.