Este simulacro de exploração dolmenica proporcionou-me o ensejo de recolher uma lenda popular, local, com saibos de realidade, pelo facto que ela concretiza.
É esta: ia correndo o trabalho da exploração, quando se abeira de nós um homem, da freguesia de Vascões, que, pelo ar e modos, devia ser um lavrador, ladino e finório.
Vestia domingueiramente e era cortez. Saudou-nos respeitosamente, mas com afabilidade, brincando-lhe nos lábios um sorriso, que lhe ficava bem.
Dirigiu a vista, perscrutadora e curiosa, para a escavação e, pouco depois, interpela-nos assim: «então os senhores andam a procurar a Moura? Efectivamente, continuou, aqui há um tesouro encantado.»
- Onde? pergunta o dr. Pestana de Vasconcelos.
- «Ali, na lagoa. Todas as noites de S. João, à meia noite, mão desconhecida faz tocar no meio dela um... sino de ouro»[1].
O sr. dr. Pestana fez-lhe ver que na lagoa não havia sino algum de ouro, mas que ela representava muito ouro, porque era a origem do rio Coura, fertilizador das terras da maior parte do concelho.
Pouco depois, passava outro indivíduo, que, segundo parecia, andava em procura das suas vacas. Aproximou-se, cortejou e repetiu, sem grande solicitação, a mesma historia do sino.
Ainda vieram mais, todos daquela freguesia, e todos afinavam pelo mesmo diapasão, afirmando, muito peremptoriamente, «que toda a gente de Vascões tinha ouvido tocar o sino de ouro».
Mas, interrogados individualmente pelo sr. dr. Pestana, sobre se algum deles tinha ouvido o som fascinador, o badalar aurífero, do misterioso sino, também todos responderam negativamente.
Creio, porém, que a lenda continua arreigada, porque, tendo eu acompanhado o sr. dr. José Leite de Vasconcelos numa exploração, que ele fez, muito de fugida, em Setembro de 1905, às Antas de Lamas ou da Salgueirinha, soube, passados dias, que os ciprianistas deram lá, investiram com um dolmen, fizeram profundas escavações e puseram tudo em palha-velha.
Determinar, principalmente, a situação das antas deste concelho e fazer o seu inventário, embora incompleto, é o meu fito.
Não se trata, pois, da sua exploração e estudo.
O «Corno de Bico» é uma montanha a leste deste concelho, que corre de norte a sul.
Altitude máxima - 889 metros. O seu prolongamento meridional dá origem a outros montes, um dos quais tem um sítio chamado - Cruz Vermelha, que delimita os três concelhos de Paredes de Coura, Arcos de Valdevez e Ponte do Lima.
Aí encontra-se um grupo de cinco antas, com as suas,
- ↑ É tradição local que nesta lagoa existiu uma cidade.