Ir para o conteúdo

Página:No Alto Minho Paredes de Coura.pdf/69

Wikisource, a biblioteca livre

Dantes, as funções municipais e judiciais confundiam-se na mesma pessoa, e é por isso que vemos o juiz a presidir às vereações e a deliberar com elas, sendo o seu presidente nato.

Quando, porém, se tratava de negócios que não eram, propriamente, judiciais, como de «doações», etc., era frequente ler-se em diplomas emanados da Coroa: «terra de Coyra», ou somente - Coira,- ou concelho de Frayão.

As freguesias, componentes do antigo julgado de Frayão, estão hoje integradas nos concelhos de Coura, Valença e Monção.

Conforme a «alçada» dentre Cávado e Minho[1], nomeada por D. Afonso III[2] para proceder à indagação dos bens da Coroa, que andavam, indevidamente, fora dela, eram todas as que constituem o actual concelho e comarca de Paredes de Coura, e, além dessas: S. Pedro da Torre, Cerdal (Sancte Ovaye de Cerzal), Gandra, S. Salvador de Vilar da Lama, Santa Maria de Crastelo, Tayão, Fontoura, Mosteiro de Ganfei, Vila de Valença, Santa Maria da Silva, Mosteiro de S. Fins de Friestas e Verdoejo.

Frayão, Freyon, Freyam e Freyão eram variações do mesmo nome do julgado, também aplicado ao Castelo de Frayão[3], situado na vertente norte da serra da Boulhosa, o qual, na actualidade, não passa de um enorme e curioso amontoado de grandes moles de pedra, que podem servir de abrigo e defesa naturais.

Junto deste Castelo é que o juiz de Frayão vinha fazer audiência.

É de crer que dele viesse o nome ao julgado, como se lê na «Mesopotamia de Portugal »[4].

E donde veio para o Castelo?

O meu ilustrado patrício e amigo sr. tenente-coronel Manuel J. da Cunha Brandão inclina-se a que de um D. Frayão ou Froylão, fidalgo lombardo, que acompanhou o conde D. Mendo, quando veio às Astúrias combater, com outros cavaleiros, a mourama, é que ficou este nome ao Castelo[5].

Em muitos documentos, continua o mesmo escritor, chama-se a Fraião, castelo de Froyla, que é uma forma alatinada de Frayão ou Froyão.

Foi D. Manuel quem decretou a separação de Coura do antigo julgado de Frayão, quando lhe deu Foral e doou ao Colégio dos Jesuítas, de Coimbra, o convento e Mosteiro de S. Fins de Friestas[6]. Este Foral foi dado em 2 de Junho, de 1515.

Cumpre não confundir este Castelo com o da Penha da Rainha, que fica ao norte, o qual também abrangia uma circunscrição judicial.


  1. «Portugaliae Monumenta», pag. 256 e seg.
  2. Reinou desde 1248 a 1279.
  3. O sr. tenente-coronel Cunha Brandão entende que este nome deve datar do século IX, e que talvez venha da palavra árabe - Pharao, que se lê Phareon; e que no galego há a palavra - fragon, correspondente à nossa - fragão - grande fraga. Daqui Frayão.
  4. «Minho Pitoresco», pag. 84.
  5. Não aparece a casa onde se faziam as audiências no Castelo, mas ainda se encontram dispersas algumas pedras afeiçoadas, que denotam ter servido em alguma construção ou edifício. O D. Mendo, a que se refere o texto, parece ter sido o tronco dos antigos Mendes da Galiza, um ramo dos quais, segundo se presume, teve o solar em Vila-Mende, freguesia de Ferreira, deste concelho. (Cfr. «Voz de Coura», n.ºs 99 e 100).
  6. Esta doação foi feita por D. João III, em 1545, segundo Pinho Leal, vol. 3.º, ag. 198, e os Jesuitas tomaram conta dela em 1548.