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Página:No Alto Minho Paredes de Coura.pdf/83

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dia 14 do corrente o P.e Manuel José da Cunha, da freguesia de Insalde[1], a fazer na egreja uma pratica, dizendo que todas as dispensas matrimoniaes estavam nullas... Outrosim lembro a V. Sª que consta que n'este concelho há clerigos que celebram sém legitima jurisdicção... D. G. Coura 22 de outubro de 1838. O administrador do concelho, (a) Miguel d'Antas Bacellar Barbosa.»

O caso foi este: no dia 13 de Outubro, daquele ano, apareceu em casa do P.e Manuel Luiz Lourenço, do lugar do Souto, freguesia de Insalde, o P.e Joaquim José Meireles, do Pico de Regalados, abade de S. Paio de Vilela, em Bouro, suspenso do benefício.

Apresentou-se como «Sub-Delegado» de fr. António da Falperra[2], o qual, dizia o P.e Meireles, era «Vigário Apostólico» de S. Santidade.

Com o P.e Manuel Luiz Lourenço, morava seu sobrinho P.e Manuel José da Cunha.

Ambos, pois, receberam o P.e Meireles e por este lhes foi apresentada uma «papelada» (textual), tendente a mostrar que ele vinha dar «legitima jurisdição» ao clero, «absolver» o povo das censuras em que tinha incorrido e «validar» os casamentos feitos com dispensa, porque, dizia, estavam nulos.

Os sacerdotes de Insalde, de tímida consciência, facilmente aderiram às sugestões daquele emissário, que os predispôs para o cisma, principalmente ao P.e Manuel José da Cunha, que, decerto, não veria com bons olhos quem o havia suspendido.

Foi, pois, facil a tarefa, e tanto que, no dia seguinte (domingo), já os três foram para e[sic.] igreja paroquial evangelizar a nova doutrina[3].

O P.e Meireles fez ali uma prática ao povo, levantou-lhe a excomunhão, absolveu os Padres e deu-lhes nova jurisdição[4].

No dia 20 (sábado) o mesmo sacerdote, com o Reitor do Casal, dirigiram-se, de manhã, para a residência paroquial da freguesia das Porreiras, que confina com aquela, afim de aliciar o abade, Rev.do José António Pereira.

Este, porém, recalcitrou, não se prestando a submeter-se à doutrina pregada pelo P.e do Pico de Regalados.

Ameaçado de suspensão, ou melhor suspenso imediatamente pelo Meireles, o pobre abade sertanejo conformou-se, e lá foi, no outro dia (domingo), para a sua igreja com o P.e Manuel José da Cunha, onde este, depois da prática preparatória, absolveu o pároco e o P. José Manuel Barbosa[5], capelão na capela de S. João de Reirigo[6].

Entretanto, o Sub-Delegado andava missionando por outras localidades do concelho, e chegou à freguesia de Ferreira, onde havia bastantes sacerdotes.

Preparado de véspera o terreno, subiu ao púlpito desta igreja e pregou a doutrina sabida, aconselhando, demais a mais, que, no temporal, se devia obedecer à Rainha, e no espiritual, - «a uma só cabeça»; e, por último, abordou o


  1. Era geralmente, conhecido por Reitor de Insalde, ou do Casal. Estava suspenso do seu benefício - a Lixa.
  2. Logo veremos quem era.
  3. O P.e Manuel Luiz Lourenço estava encarregado de paroquiar Insalde.
  4. Fr. António Fernandes, desta freguesia, não quis ser absolvido nem nova jurisdição.
  5. Foi tal o escrúpulo deste Padre, que não tomou a celebrar, enquanto não mostrou os seus documentos ao mencionado Sub-Delegado.
  6. É uma povoação serrana, pertencente à freguesia de Formariz e vizinha da de Porreiras.