Tendo vindo a missionar a Parada os frades franciscanos de Vinhaes[1], o mancebo pediu-lhes que o aceitassem na sua Ordem, ao que eles anuiram. Entrou, pois, para o convento, contando apenas 15 anos de idade e professou no Seminário franciscano daquela vila, em 1789, tomando o nome de fr. António de Jesus.
Durante a sua vida monástica apenas veio uma vez à casa paterna, e essa a pedido de sua mãe.
Estudante distinto, era versado em diferentes línguas: - portuguesa, francesa, inglesa, italiana, castelhana, hebraica e latina, - e cultivou, vantajosamente, as ciências divinas e humanas:
Muito temente a Deus, era estimado pelos homens piedosos, mas foi caluniado e até perseguido pelos impios e, sobretudo, pelos jansenistas.
No convento tinha a seu cargo a educação dos noviços, de quem era guardião.
Em 1826, depois de obter um Breve de Leão XII e de lutar com grandes dificuldades, deu começo à edificação do convento de missionários da Falperra, para o qual entrou em 1833, padecendo, desde então, trabalhos e perseguições injustificáveis.
Depois da extinção das Ordens religiosas (1834), foi constituído por Gregório XVI «Vigário Apostólico» em todo o reino de Portugal e Administrador provisório do arcebispado de Braga.
Simples, e austero para consigo, era afável para com todos.
Com risco da própria vida e admirável abnegação, prestou relevantíssimos serviços aos liberais que estavam encerrados na Torre de S. Julião da Barra, em Lisboa, indo, espontaneamente, viver com eles, para lhes suavizar o rigor da prisão, chegando a obter a transferência de muitos para fora daqueles antros infectos, sendo-lhes dados compartimentos, que, ao menos, tinham ar e luz. Fez mais: levou os extremos da sua caridade e da sua comiseração até ao ponto não só de repartir, com os liberais presos, os parcos recursos próprios, mas de ir esmolar, pelas ruas de Lisboa e casas das suas relações pessoais, para mitigar a penúria daqueles encarcerados, procurando sempre dulcificar-lhes o desconforto e agruras da masmorra.
É ele próprio que o relata, na sua obra - «Narração abreviada dos padecimentos que viu e como pôde alliviou fr. Antonio de Jezus, nas prisões da Torre de S. Julião da Barra, em dezembro de 1832, janeiro, fevereiro e março de 1833»[2].
Não obstante estes desinteressados serviços, os liberais de tudo se esqueceram, para fazerem coro com os perseguidores de fr. António, dos seus seminaristas e do seu convento!
Muitos desses a quem o humilde frade tanto beneficiara no cárcere, podendo obstar àquelas perseguições, como era sacratíssimo dever de gratidão, não quiseram saber dele, desprezaram-no, e alguns até se aliaram, na perseguição, com os seus inimigos![3]
Faleceu na freguesia de Mofreita, concelho de Vinhais, a 20 de Outubro, de 1841, contando 67 anos de idade.
- ↑ Eram varatejanas.
- ↑ Esta obra é inédita. Encontrava-se em poder de Fr. José da SS. Trindade, egresso da Falperra, e residente em Vila Flor.
- ↑ Os religiosos de Vinhais tiveram, em 1834, a sorte de todos os conventos, mais agravada, dura e cruel, porque os outros foram simplesmente expulsos das suas celas, enquanto que aqueles foram presos e conduzidos para as cadeias da Relação do Porto, não lhes sendo permi- tido levar consigo mantimento sequer para o primeiro dia de jornada. Tiveram, por isso, de sofrer muitas privações, além de vaias e apupos dos guerrilhas, que os conduziam!