v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013
aquela "flor" do Primeiro Reinado. Com seus métodos antigos e sua devoção à palmatória, tudo o que Barata pedia aos seus alunos era "lição de cor e compostura na aula".
Nada mais, nada menos [comenta Brás] do que quer a vida, que é das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora a entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo um preto velho — ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.[1]
Em comparação com Barata, podemos apresentar sua antítese, o Elisiário do conto "Um erradio".[2] Elisiário era um professor de latim e matemática, mas fascinado em aprender de tudo. Ele costumava levar um aluno a cada esquina da cidade do Rio de Janeiro, para os templos, para o mar, dentro dos tempos passados para respirar os ares da colônia e contemplar as figuras dos mortos. Chegou até a descobrir a Grécia e a Vênus de Milo na beleza de uma quitandeira negra da Bahia. "A imaginação evocativa era a grande prenda desse homem."[3]
Poderíamos examinar mais professores, mas, em vez disso, vamos dar uma olhada no estilo literário acadêmico, que Machado chamava de estilo ab ovo. A fina flor desse produto magnífico está em "Identidade", a história de um faraó egípcio que deixou seu trono para outro, e, com algum dinheiro e uma caixa de pedras preciosas, saiu pelo mundo em busca de vida e liberdade. Quase que imediatamente encontrou Charmion, uma mulher cujos olhos estavam cheios dos mistérios do Nilo. Naturalmente ela se apaixonou loucamente por ele e por sua caixa de pedras preciosas. Ela deixou o marido e fugiu com o faraó pra uma cidade distante, onde viveram numa casa coberta deFundação Casa de Rui Barbosa – R. São Clemente, 134, Botafogo – 22260-000 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
- ↑ Memórias póstumas de Brás Cubas, cap. XIII. [ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, INL, 1977, p. 125-126.]
- ↑ No texto traduzido para o inglês o título aparece como "O erradio". Nos casos de erro evidente, nos títulos e nas citações, fiz as devidas correções. [N.T.]
- ↑ [ASSIS, Machado de. Um erradio. In: ______. Páginas recolhidas. Edição preparada por Marta de Senna. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 28.]