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Página:Nosso primo americano, Machado de Assis.pdf/4

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Machado de Assis em linha, Rio de Janeiro.
v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013

outro é sempre a vitória da língua inglesa, com mais arcaísmos de um lado ou mais americanismos de outro, Macaulay ou Bancroft — numa só palavra, Shakespeare."[1]

Ao ler os trabalhos de Machado de Assis, encontrei 160 referências a Shakespeare. Qualquer um desses tributos serviria para mostrar seu sentimento pelo nosso poeta, mas nenhum talvez melhor do que a crônica de 26 de abril de 1896:

 

"Terminaram as festas de Shakespeare", diz um telegrama de Londres, 24, publicado anteontem, na Notícia. Eu, que supunha o mundo perdido no meio de tantas guerras atuais e iminentes, crises formidáveis, próximas anexações e desanexações, respirei como alguém que sentisse tirar-lhe um peso de cima do peito. Que me importa já saber se o príncipe da Bulgária comungou ou não, esta semana, tendo-lhe o papa negado licença? [...]

Cuba, que me importa agora Cuba? A rebelião[2] come gente, sangue e dinheiro; a independência far-se-á ou não. [...]

Guerras africanas, rebeliões asiáticas, queda do gabinete francês, agitação política, a proposta da supressão do Senado, a caixa do Egito, o socialismo, a anarquia, a crise europeia [...] que me importa tudo isso? Que me importa que, na ilha de Creta, cristãos e muçulmanos se matem uns aos outros, segundo dizem telegramas de 25? E o acordo, que anteontem estava feito entre chilenos e argentinos, e já ontem deixou de estar feito, que tenho eu com esse sangue que correu e com o que há de correr?

Noutra ocasião far-me-ia triste a notícia dos vinte e tantos autos roubados a uma pretoria desta cidade. [...] outra seria a minha impressão disto, como do resto, se não fosse o telegrama de Londres, 24.

"Terminaram as festas de Shakespeare..." O telegrama acrescenta que "o delegado norte-americano teve grande manifestação de simpatia". A doutrina de Monroe, que é boa, como lei americana, é coisa nenhuma contra esse abraço das almas inglesas sobre a memória do seu extraordinário e universal representante. Um dia, quando já não houver Império Britânico nem República norte-americana, haverá Shakespeare; quando se não falar inglês, falar-se-á Shakespeare. Que valerão então todas as atuais discórdias? O mesmo que as dos gregos, que deixaram Homero e os trágicos.

Dizem comentadores de Shakespeare que uma de suas peças, a Tempest, é um símbolo da própria vida do poeta e a sua despedida. Querem achar naquelas últimas palavras de Próspero, quando volta para Milão, "onde de cada três pensamentos um será para a sua sepultura", uma alusão à retirada que ele fez do palco, logo depois.

http://machadodeassis.net/revista/numero11/rev_num11_artigo01.asp
Fundação Casa de Rui Barbosa – R. São Clemente, 134, Botafogo – 22260-000 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
4
  1. A Semana (III), 17 jan. 1897. [In: ASSIS, Machado de. A Semana, 3º volume (1895-1900), Rio de Janeiro: Jackson, 1950, p. 403.]
  2. No texto em inglês aparece a palavra "revolution" em vez de "rebelion". [N.T.]