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Página:O Conde Lopo.pdf/66

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IV

Era pois a mulher uma perdida
O mancebo um poeta — alma quebrada
Em fragoas do sonhar — que fora ás noites
De gozo queimador pedir repouzo
Para a fronte febril. Amara as orgias
Pois das taças á luz, ao som de cantos
Como as amava o grande-rei de Byron
(O mestre do viver — Sardanapalo —)
Entre flores e beijos e perfumes
— Três cousas em que cifra-se a ventura
Que não de louco sonhador — na terra —
Dormia ás vezes embalado e quedo
No peito seu o recordar dos sonhos —
Na mente a duvida e o fel nos lábios.

Chamaram-n'o talvez pródigo e louco
De orgias vivedor — e perdulário —
Virtuosos do mundo...
             Elle era rico —
Nas abertas gavetas ás mãos cheias
Tirava o ouro. —
             Amigos — não os tinha
Como o Childe de Byron — mas ainda
Desgosto amargo do viver — tão fundo
Não lhe roera o coração — ainda,
Embora elle o calasse, adormecidas
Eram-lhe n'alma, apenas, essas fibras