Página:O Momento Literario (1908).pdf/38

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decisivo; sempre fui homem material, e, rudeza ou grosseria, sempre tudo submeti e subordinei à forma, não havendo para mim substância se não a externa, palpável e evidente. Sou capaz de afirmar e afirmo que me fiz poeta só e unicamente porque eu tinha então papel, esplêndido, como se diz hoje, para versos: eram umas aparas do Arquivo Econômico da Bahia, revista que meu avô assinava e cujas margens larguíssimas por supérfluas eram cortadas; do bico da tesoura eu recolhia aquelas fitas brancas e lisas, que na minha mão se enrolavam curvas como o aço dos relógios, esperando a desenvolução futura, nos momentos de furor e de estro.

Naquelas duas polegadas de papel a minha letra miúda poria destramente um alexandrino, mas nem de tanto havia mister, porque eu comecei pela oitava rima e pelo poema épico: a epopéia devia ser uma Brasileida ou Brasilíada (ou coisa que o valia, e agora me esquece) e era assunto a crônica de descobrimento do Brasil, que eu li no Panorama[1] e onde se contavam os amores de Ipeca, índia tupinacuim, e de um português da frota de Cabral. Acabo aqui a história porque já vou excedendo, mal a meu grado, os limites da resposta; mas

  1. Creio que de F. A. Varnhagen; um romance histórico; estava então na baila W. Scott, entre os escritores portugueses Rebelo da Silva, Herculano, etc.