Página:O Mulato.djvu/12

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tada de mulher, cantar em falsete—A gentil Carolina era bella; de um outro lado uma preta velha, vergada por immenso taboleiro, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por um enchame de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancolico—Fígado, rins e coração! Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar os quadris maternos, com as cabeças avermelhadas pelo sol, a pelle crestada, os ventres salientes e amarellos, corriam e guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sahir, atravessava a rua, suado, vermelho, afogueado e com o enorme chapeu de sol aberto. Os cães, estendidos nas calçadas, tinham gemidos humanos, sensuaes e movimentos irasciveis—mordiam freneticamente o ar, querendo morder os mosquitos. Ouvia-se apregoar ao longe—Arroz de Veneza, mangas e limões.

As quitandas vasias fermentavam um cheiro acre de sabão da terra e agoa-ardente; o quitandeiro, assentado sobre o balcão, cochilava seu aborrecimento pesado e morrinhento, acariciando o enorme pé descalço e espalmado.

Da praia de Santo Antonio enchia a cidade um som monotono e invariavel de uma buzina, que annunciava peixe; para lá convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, negras, com os taboleiros na cabeça, rebolando os grandes quadris tremulos e as tetas opulentas.