Página:O Mysterio da Estrada de Cintra (1894).pdf/203

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em que ardiam dez velas côr de rosa. Do travejamento escuro do tecto pendiam como cortinas pardacentas e prateadas as teias de aranhas rasgadas pelo peso do pó.

Desenrolámos o fardo que tinhamos collocado junto da cova, e contemplámos pela derradeira vez a figura do morto estendido sobre a sua manta de viagem.

Tinham-lhe atado a gravata branca, abotoado o collete e vestido a casaca azul de botões de ouro, em cuja carcella se via ainda pendida uma rosa murcha. A cabeça d’elle, na luz a que estava sujeita, era de uma expressão ideal. Os olhos, de que se não viam as pupillas, apagados e immoveis, davam ao seu rosto o vago aspecto que apresentam os das antigas estatuas. Nos labios entre-abertos parecia pairar um leve sorriso sob o bigode arqueado. Os anneis do cabello, despenteados pelo contacto da manta em que viera envolto o cadaver, destacavam na lividez da fronte como um vello de ouro n’uma superficie de marfim.

Havia um silencio profundo. Ouvia-se o bater dos segundos nos relogios que tinhamos nas algibeiras e o zumbir das moscas que esvoaçavam sobre a face do morto. Eu fitando-o com os olhos marejados de lagrimas, pensava melancolicamente...

Pobre Rytmel! Se n’este momento solemne, em que o teu corpo espera á beira da cova pelo seu descanço eterno, te faltam na terra as pompas funebres devidas á tua jerarchia; se te não seguiu até aqui um prestito de uniformes recamados de ouro; se nem sequer tens ao entrar na tua derradeira morada as orações de um padre e a luz de um cirio, cubra-te ao menos a benção da amisade! Descendente de lords, moço, intelligente e bello, quando todas as flores que perfumam a vida desabrochavam debaixo dos teus passos, apaga-se de subito no firmamento a estrella que presidiu ao teu nascimento, e tu baqueias como o ente mais despresivel no fundo de uma sepultura sem lapide, sem nome, na mesma casa em que vieste procurar a ultima expressão da tua felicidade, á luz das mesmas velas que alumiaram o teu derradeiro beijo! Os outros desgraçados que morrem têem ao menos na terra um logar assignalado onde repousam as suas cinzas, e onde podem ir os que os amaram chorar por elles. É mais cruel o teu destino: tu morres e desappareces! Não ensombrarão a tua campa as arvores tristes dos cemiterios. As aves que passarem nos ceus não baixarão a beber da agua que as chuvas tiverem deixado na urna do teu mausoleu. A lua, terna amiga dos mortos, não virá beijar por entre a rama negra dos cyprestes,