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Página:O Nheengatu, entre a vida e a morte — a tradução literária como possível instrumento de sua revitalização lexical.pdf/12

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ISSN: 2317-2347 – v. 6, n. 2 (2017)

Trevisan. Está sendo preparada por Carlos Jonathan Gomes a tradução do inglês para o nheengatu do conto de Edgar Allan Poe, The Black Cat.

Na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) têm sido ministradas aulas de nheengatu para a formação de professores da rede pública de ensino, mas os cursos são abertos a todos os interessados. Trata-se de uma região da Amazônia onde o nheengatu não é mais falado e onde aflorou um movimento revivalista, há alguns anos, que busca a ressurreição do nheengatu como forma de fortalecer identidade indígena por parte de populações caboclas. Isso tem resultado no envolvimento heterogêneo das pessoas para com a língua, possibilitando a formação de tradutores com variadas experiências, interesses e formações: professores e jovens estudantes; missionários, políticos e poetas.

Uma das contribuições das traduções literárias para o nheengatu é em sua revitalização lexical. O aludido trabalho de tradução do livro Terra dos Meninos Pelados, do português para o nheengatu, incluiu uma pesquisa linguística e lexical do idioma-alvo. Paralelamente ao estudo do nheengatu tal qual é veiculado atualmente na bacia do Rio Negro[1], foram lidas e estudadas diversas obras que registraram o tupi antigo e a língua geral amazônica de diferentes séculos. Selecionou-se, assim, um corpus[2] que permitisse uma pesquisa comparativa do léxico do nheengatu registrado na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX com o do idioma atualmente falado no Alto Rio Negro e seus afluentes. Eventuais cotejos com estágios mais antigos do idioma também foram feitos quando considerados pertinentes. Essa pesquisa possibilitou a utilização de vocábulos do nheengatu que vêm caindo em desuso, sendo hoje lembrados apenas pelos falantes mais experientes, ou mesmo de termos que foram completamente esquecidos e, na maioria dos casos, substituídos por empréstimos da língua portuguesa.

A retomada de vocábulos em desuso via pesquisa lexical não teve por objetivo negar a influência da língua portuguesa no nheengatu nem anular as mudanças que o idioma sofreu no último século, mas, sim, apontar para outros possíveis caminhos. O português, sendo língua nacional, com tradição escrita e maior prestígio, exerce pressão sobre as línguas minoritárias brasileiras, o que não é diferente com relação ao nheengatu, pois, afinal, o contato entre os dois idiomas é antigo e, desde o século XIX, isso tem causado uma


  1. Até o fim do processo de tradução, um total de seis viagens foram realizadas por Marcel Ávila para São Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas, entre os anos de 2011 e 2016. Durante a terceira viagem, sua permanência na região foi de quase sete meses (de agosto de 2013 a fevereiro de 2014), período oportuno para conhecer muitos falantes de nheengatu e desenvolver fluência no idioma.
  2. Para saber que obras compuseram esse corpus, cf. 2.1. As fontes escritas da LGA (ÁVILA, 2016, pp. 44-55).

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