
diminuição acelerada no seu número de falantes. O linguista Hildo Honório do Couto, ao tratar do processo de obsolescência e morte de línguas, descreve de forma genérica uma situação de contato, que espelha, em parte, o caso particular das línguas portuguesa e nheengatu:
A obsolescência (e a morte) de língua é mais uma consequência do contato de línguas, resultado de deslocamentos de povos e respectivos idiomas. Elas têm a ver com o contato, em dois sentidos. Primeiro, a atrição da Língua1 com uma Língua2 mais poderosa ou dominante. Segundo, e em consequência disso, o fato de os falantes da Língua1 deixarem de usá-la, por pressão da Língua2 dominante. Afora isso, uma língua pode desaparecer devido ao desaparecimento da população que a fala (COUTO, 2009, p. 83).
No município de São Gabriel da Cachoeira, percebe-se uma situação complexa quanto à competência linguística dos falantes das várias línguas indígenas ali existentes: muitos compreendem um idioma, mas não são capazes de falá-lo; a fluência nos idiomas é muito diversa, e os mais jovens, sobretudo, recorrem constantemente a empréstimos da língua portuguesa; vocábulos ainda conhecidos pelos mais velhos são desconhecidos pela maioria dos jovens, o que aponta para um processo de perda do vocabulário tradicional dos idiomas. Na sede urbana do município e na maioria das comunidades localizadas à jusante da cidade, incluindo-se o território dos demais municípios banhados pelo Rio Negro, a situação é ainda mais crítica, pois a maioria das crianças já é monolíngue em português.
A perda do vocabulário tradicional, a excessiva utilização de empréstimos da língua portuguesa e as dificuldades na transmissão do idioma para as crianças são claros sintomas de um processo de obsolescência da língua, cuja evolução poderia levar à “morte” do idioma, processo conhecido como glototanásia:
(...) Alguns autores afirmam que, primeiro, a língua perde léxico, depois vem uma grande quantidade de empréstimos, seguidos de traços gramaticais da L2. Geralmente, isso é seguido de uma simplificação estrutural, sendo que os traços que se perdem não são substituídos. Por fim, quando a transmissão dessa L1 às crianças é interrompida, temos o termo do processo, a glototanásia. O processo gradual de perda de domínios de uso, de falantes e de material linguístico é chamado de atrição (attrition) (COUTO, 2009, p. 85, grifos do autor).
Com o processo de popularização da escrita nos idiomas indígenas, que apenas se inicia, vemos que, entre muitos falantes, a seleção mais criteriosa do vocabulário dos textos —
típica da elaboração escrita — converge para a busca de termos tradicionalmente ligados a
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