Em materia de contos populares, é essa talvez a mais rica mina que, logo abaixo do mytho, se pode explorar para escrever a historia do pensamento primitivo da humanidade: não ha talvez no mundo inteiro, paiz que offereça melhor opportunidade para se colherem tão grandes riquesas, como o Brazil, justamente porque, assim como aqui, no immenso cadinho de nossa patria, se fundem actualmente os sangues dos grandes troncos branco, negro, amarello e vermelho, assim tambem se fundem as tradições e crenças primitivas, o pensamento espontaneo de todos esses troncos. Ah! que immenso e rico museo não temos aqui nos quarteis do nosso exercito, onde os soldados são mestiços vindos de todas as provincias! Que immenso museo vivo não possuimos para preparar a historia do pensamento primitivo da humanidade! Cumpre não desprezar essa mina riquissima que possuimos em nosso paiz, e, explorando e estudando a qual, podemos concorrer para o mais bello monumento intellectual do seculo 19, que é, na opinião convencida do Snr. Beaudry, refaser a historia do pensamento espontaneo da humanidade, que se encontra hoje somente em duas formas: na do mytho, e na do conto popular.
Cumpre porém não confundir estes dous vestigios antiquissimos do pensamento humano, e eu, para distinguil-os, peço permissão para transcrever as palavras. do autor, que ha pouco citei, palavras que vem na introducção á mytollogia zoologica dos Vedas.
«Entre o conto popular e o mytho, diz elle, existe apenas uma simples defferença de epoca e dignidade.