Página:O Tronco do Ipê (Volume I).djvu/90

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em um seio que formava o lago, a água parecia adormecida e completamente imóvel. Aí o sopro da aragem embaciava o espelho sempre liso e brilhante; apenas, a não ser ilusão da vista, percebia-se uma leve ondulação concêntrica.

A extrema velocidade desse movimento esférico era justamente o que produzia a ilusão. Quem não observasse o fenômeno com bastante atenção, afirmaria sem dúvida que ali era, não o eixo do turbilhão, mas o remanso das águas, o seu regaço, onde vinham adormecer as ondinhas da margem.

Às vezes a face do lago se arredondava suavemente, e abria uma covinha mimosa, semelhante à que forma o sorriso no rosto de uma moça bonita. Mísero de quem, descuidoso, prendesse os olhos às carícias que borbulhavam ali.

A onda, que Shakespeare comparou à mulher na constante volubilidade, ainda se parecia com ela na voragem daquele sorriso. Se na borbulha d'água se aninhava a morte como um aljôfar gracioso, que estava namorando os olhos, também assim a alma do homem se embebendo na covinha de uma face