Naturalmente houve logo exaggero n’esta evolução, ao caminhar desassombrada. A breve trecho ficou distante o tempo em que, como no inicio do Imperio, se respeitavam tão pouco as immunidades parlamentares que se instauraram causas criminaes sobre a base de discursos pronunciados na Constituinte, e o segredo da correspondencia tão superficialmente se observava que, por ordem do ministro da justiça, cartas interceptadas e violadas no correio figuravam em processos politicos. Vinte e cinco annos depois os gabinetes tinham passado a viver da confiança do Parlamento e a este prestavam contas minuciosas da sua gestão administrativa, na qual as Camaras participavam effectivamente. Tambem aos presidentes de Conselho seria dado recrutarem livremente seus collegas de ministerios. Diz-se mesmo que já em 1843 Carneiro Leão (Paraná) gozara desta faculdade. Quando em 1883 o ministro da Guerra Rodrigues Junior foi convidado pelo presidente do Conselho, Lafayette, a demittir-se por incompetente, recorreu ao Imperador para reparação da affronta que lhe fôra assim infligida. A resposta de D. Pedro II foi que de ha muito tinha transferido aos presidentes do Conselho o privilegio de propôr a nomeação ou a demissão dos seus collegas. Aliás, nas palavras do snr. Calogeras, varias vezes ministro na Republica [1], « o esforço imperial quanto aos partidos procurou sempre exercer-se no rumo da opinião nacional e do interesse publico, mesmo nesse ponto de escolhas de ministros, que representava faculdade privativa sua, na organização de governos ».
O executivo foi até certo ponto culpado da auctoridade crescente do legislativo, permittindo que a intervenção deste se extendesse a assumptos administrativos de menor alcance, os quaes passaram a ser regulados pelos pareceres das commissões parlamentares em vez de sel-o por decisões ministeriaes. A denominação de congressional government, usada por Wilson nos nossos dias com relação ao governo americano, não foi na sua realidade uma innovação. O governo imperial entrou
- ↑ O poder pessoal e o « lapis fatidico », no mumero commemorativo d’O Jornal, de 2 de Dezembro de 1925.