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FABULARIO PORTUGUÊS


zinha e o rrato da çidade, que ssabia o custume da casa, fugio loguo, e ho outro rrato, porque nom ssabia o custume, ficou. E o cozinheyro, amdando em pos ell com hũu paao na maão [1] pera o matar, feri’-o[2] muy mall; empero fugio-lhe, e partio-sse muy mall ferido.

E o rrato da çidade, veemdo-o, chamou-ho, que outra vez viesse<m>[3] a comer com elle, e nom ouuesse[4] medo; e o outro rrato lhe respomdeo:

— Amiguo meu, ora fosse eu jajuum[5] do comvite que me fezeste! A mym praz mais de comer trijguo, fauas e heruamços em paz, que gallinhas[6] e capõoes com temor e prijguo de morte. /       [Fl. 9-v.] A paz, a quall eu ssempre tenho comiguo, me faz a mym os meus comeres sseerem delicados. E porem teus comeres guarda-os pera ty, ca eu me comtemto do que hey.

E, as palauras dictas, partirom-sse.





Em aquesta estoria o doctor louua a proveza, e diz que quamdo a probeza sse toma com alegria de coraçom, nom sse deue chamar probeza, mas rriqueza, porque a probeza he a mays ssegura cousa que no mundo sseja; que milhor he a proveza que a rriqueza, a qual rriqueza ssempre faz viuer o homem com gram temor: e o probe que sse comtenta da ssua proveza mais rrico he[7] que ho rrico que nom sse comtemta, mais ssempre e numca he farto.


XIII. [A aguia que arrebata o filho da raposa]

       [Fl. 10-r.][C]omta-sse que hũa vez a aguia, andamdo buscamdo caça pera sseus filhos, achou os filhos da rraposa, e tomou-hos e leuou-hos a hũu ninho hu estauam sseus filhos, e queria-hos matar e dar-lh’os a comer.

Em esto estamdo, chegou a rraposa ao pee da aruor omde a aguya tijnha sseus filhos, e rogaua com doçes palauras que lhe dessem[8] sseus filhos; e a aguya lhe rrespomdeo que lh’os nom queria dar.

  1. No ms. maao.
  2. =ferio-o. No ms. ferio.
  3. No ms. lê-se viessem com todas as lettras, mas deve ser viesse, como se mostra do ouuesse da oração seguinte. O -m resultou da influencia da ideia de «dois ratos» que estava na mente de quem escreveu.
  4. No ms. ouuvesse.
  5. Assim está, e não jajũu, como seria de esperar.
  6. No ms. gªs.
  7. Depois de que ha uma lettra riscada.
  8. No original: «dese<m>». Leite de Vasconcelos explica em nota: «Quem escreveu pôs por equivoco dessem, pensando talvez na aguia e nos filhos, mas vê-se da sequencia das ideias que o sujeito da oração é só aguia.» Contudo, na secção Corrigenda & Addenda, retira esta nota e a substitui por «dessem refere-se á aguia e aos filhos.»